Com profunda memória

“Um Certo Porto” é o que foi feito, desfeito e está por fazer. E, neste último aspecto, torna-se um desafio muito exigente para quem vier a governar a cidade-concelho: porque nela só se pode tocar, seriamente, com profunda memória.

“Ignorância do presente, ignorância do futuro – estas são desculpáveis. Mas ignorância de quanto somos ignorantes é imperdoável.”

Arthur Schlesinger Jr. (1888-1965), historiador.

“Um Certo Porto” é o olhar e os sentimentos de Helder Pacheco e das personagens, mais ou menos ilustres, que ele convoca para a memória da Invicta, a cidade que desapareceu e aquela que pode morrer, e a outra, a que está à vista, elegante ou feia, apelativa ou desagradável, bela ou horrível, débil ou pujante, do passado ou do Terceiro Milénio.

Do mesmo modo que se pode tocar, tanger ou pressentir, por vielas e ruas, pracetas e praças, alamedas e avenidas, entre o arruinado, o vetusto, o reabilitado, o novo-velho, a modernidade e a pós-modernidade, uma identidade portuense, que é tripeira e cosmopolita, aristocrática e burguesa, operária e elitista, também se sente o historiador na sua inteireza, com as suas convicções mais do que certezas, os seus dilemas existenciais e científicos (das Humanidades, pois!), as suas preocupações e angústias, mas, acima de tudo isso, o tecer e entretecer de tempos com ideias luzidias e imperdoáveis vilanezas.

O Porto e Helder Pacheco mimetizam-se numa proporção fantástica de acontecimentos e pensamentos ao longo de mais de três centenas de cativantes páginas. Sem se esgotarem, porque é possível que a cidade e o seu entranhado historiador tenham muito mais para contar.

Helder ama o Porto e o Porto, seguramente, ainda não percebeu quem é este homem que fotografa e escreve sobre jardins que nos povoam, bronzes da posteridade, um azul celestial, uma mágica cidade que, depois de tantas inspiradas criações, também sublinha o culto universalista com um Bairro de Livros.

“Um Certo Porto” é o que foi feito, desfeito e está por fazer. E, neste último aspecto, torna-se um desafio muito exigente para quem vier a governar a cidade-concelho: porque nela só se pode tocar, seriamente, com profunda memória.

Alfredo Barbosa, Novembro 2012

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~ por Helder Pacheco em 18/11/2012.

 
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