Um Assalto

Fui assaltado. Não, como toda a gente, através dos impostos, mas em directo. E não foi o primeiro. Já me arrombaram o automóvel três vezes, badalhocos, que só estragaram, e uma por profissional, que levou o rádio sem arranhar o carro. E no ex-20, entre a Biblioteca e o Marquês, roubaram-me a carteira. O badalhoco nem os documentos devolveu.

Agora, o assalto foi assim: no dia 16, inaugurou-se com solenidade, no Largo da Relação, a bela estátua de Mestre Francisco Simões dedicada a Camilo e Ana Plácido. Sou amigo do Chico Simões, homem generoso e artista notável, há 40 anos. Conheci-o na Madeira, quando dirigia a fantástica experiência do trabalho hortícola útil e produtivo na Escola da Ribeira Brava.

Como raramente nos vemos, demos um grande abraço e ele ofereceu-me o livro da sua obra: como é muita, boa e pesava aí dois quilos, pedimos ao segurança da portaria do CPF que o guardasse mais o guarda-chuva. Acabada a cerimónia, dirigimo-nos ao prestável funcionário a procurá-los. Atónito, respondeu-nos que um senhor lhe havia pedido o guarda-chuva e, na confusão de muita gente, confundira-o comigo e entregara-lhe também o livro.

E levou-o. Como o livro tinha bem visível a dedicatória do artista, com o meu nome, o assaltante, além de saber que não lhe pertencia, sabia de quem era. Como na cerimónia estavam políticos, autarcas, intelectuais, profissões liberais e figuras gradas, ficámos espantados. Afinal, os assaltos não ocorrem só à noite em locais perigosos e os assaltantes não são os suspeitos do costume dos Bairros problemáticos (onde nunca fui assaltado). Acontecem à luz do dia em ambientes cultos e bem frequentados.

Meus amigos: doravante, quando os convidarem para cerimónias solenes, tenham cuidado com as carteiras. Como diria minha avó: o mundo está roto.

Helder Pacheco, Janeiro 2013

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~ por Helder Pacheco em 21/01/2013.