Centralismo Sinfónico

Andava fazendo «zapping» nos programas dos sábados à noite, quando, na RTP 2, caí no céu, ouvindo uma orquestra interpretando a Suite de “Ma Mère L’Oye”, de Ravel. Pensei: onde será, tão bem tocado? Depois vi que era a Sinfónica do Porto e deliciei-me com um concerto destinado a jovens. Magnífico.

Na semana seguinte, aquela estação transmitiu, pela mesma orquestra, em S. Paulo, a 5.ª Sinfonia de Gustav Mahler interpretada magistralmente. (Quando chegou ao Adagietto do 4.º andamento, senti-me no Paraíso). Como há muito não ouvia tocar, na quase perfeição, uma obra sublime, voltei a pensar: estou diante daquelas orquestras que parecem relógios de precisão.

Como o Centralismo se esforça em cercear e anular o Norte e o Porto, um dia destes manda cá o Fiscal das Orquestras determinar os cortes na Sinfónica do Porto e ver a austeridade que aguenta. E recordei um relatório de 1973. Nele, uma Brigada Especializada em Métodos de Organização e Administração, assistiu a um concerto da Orquestra Filarmónica de Liverpool e apresentou as conclusões: 1 – Durante períodos consideráveis os 4 oboés não tocaram. O seu número pode ser reduzido e o trabalho distribuído pelo concerto todo. 2 – Os 12 violinos tocavam as mesmas notas, em duplicação desnecessária. O pessoal da secção deve ser drasticamente reduzido e o som aumentado através de um amplificador. 3 – Gasta-se muita energia tocando semi-fusas. É excessivo, deve reduzir-se o valor das notas a fusas. E poderão usar-se estagiários e trabalhadores não especializados. 4 – Há muitas repetições musicais. Não se atinge um objectivo repetindo com os metais o que tocaram nas cordas. Eliminando partes redundantes o concerto, de duas horas, será reduzido a 20 minutos.

Não se admirem que, com os cortes orçamentais, o menosprezo pelo Burgo e a sua cultura, o centralismo reduza a Orquestra Sinfónica do Porto a um Quarteto de cordas (a Bem da Nação, a Capital manterá as suas 3 ou 4).

©Helder Pacheco

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~ por Helder Pacheco em 16/06/2013.

3 Respostas to “Centralismo Sinfónico”

  1. Noutro comentario falei erradamente em Associação Nacional para Análise do Valor, quando o se nome é: Associação Portuguesa para Análise do Valor (APAV). que não tem nada a ver com outra entidade com igual sigla.

  2. O documento distribuido aconselhava ainda, entre outas coisas, substitui o piano de cauda por um vertical, porque ocupava menos espaço no armazém e, recomendava a compra de mais triângulos porque era um instrumento barato e que estava com pouca utilização, logo seia um bom investimento dar-lhe uma maior utilização

  3. Foi uma paródia feita por especialistas em “Análise do Valor”. Método que em Portugal teve uma associação (Associação Nacional para Análise do Valor) com o patrocínio do Laboratório Nacional de Engenharia e Tecnologia Industrial e da qual fui Membro Fundador. Mas, atendendo ao caminho que as coisas estão levando, não me admira que um “iluminado” não lhe veja grandes vantagens: menos despeza com instrumentos, ausência de tempos mortos e consequentemente menos perda de tempo para quem escuta Esta paródia consta dos documentos distribuidos aos que se iniciavam nesta técnica.

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