Finalmente, A Foz Velha
Finalmente, depois de quase meio século de propostas, projectos, desânimos, expectativas, aspirações (e, à sombra do vazio legal, alguns atentados) a Foz Velha foi classificada como Conjunto de Interesse Público. Embora lá tenham construído o «prédio Coutinho» do Passeio Alegre (com o qual, na altura, ninguém se ralou), a verdade é que a classificação ainda vem a tempo e vale a pena rejubilar com ela.
De facto, no espaço que vai da Cantareira à Senhora da Luz e do Cais do Adeus às 7 casas (menos uma, substituída por um caixote) da Rua da Cerca – esta será sempre, para mim, a Foz Velha – estende-se um território cheio de identidade e de espírito. Nele cresceu, na foz do rio, uma comunidade piscatória admiravelmente retratada nas páginas de Raul Brandão e, com a revolução oitocentista dos transportes, expandiu-se uma estância balnear que rapidamente conquistou os portuenses.
Devido ao relativo isolamento e afastamento do centro do Burgo, a Foz manteve, desde 1836 (e depois de breve deriva de autonomia municipal que a cidade não aceitou) até hoje, a fisionomia de urbe romântica, ancorada no sossego dos dias, usufruindo de situação privilegiada na boca da barra e na costa atlântica. Vendo bem, na Foz Velha convergem o ambiente e carácter dos centros antigos de Vila do Conde, Esposende, Viana da Foz do Lima e Caminha. Ou seja, a vila atlântica, nortenha, litoral, granítica, apegada ao chão.
A Foz Velha, pelo que representa de aldeia erudita dentro da cidade, deve ser tratada com pinças e punhos de renda – isto é, com talento – para manter o esplendor único da sua fisionomia urbana, arquitectónica e humana. Conciliando tradição e renovação, passado e modernidade, e projectando-se como uma mais-valia para a afirmação cultural do Porto em termos internacionais.
©HelderPacheco

