Senhores e política

Meu avô Eduardo nasceu em 1886.Cresceu e fez-se homem em regime monárquico, de que seria irredutível apoiante até ao fim da vida. Nunca aderiu à República, conservou-se fiel ao Rei e esteve na efémera Monarquia do Norte. Quando tudo mudou, fugiu do Porto e entrou na clandestinidade. Regressou mais tarde, abandonou a política, viveu do seu trabalho e morreu pobre. E sempre monárquico.

Ironicamente, seria preso, não pelos republicanos, mas pela PIDE, num episódio da Oposição. Num certo 31 de Janeiro, ia ele atravessando a Praça na direcção do Café Suíço (onde se juntava com os correligionários) e encontrou uma manifestação republicana. No meio da multidão, viu meia dúzia de mânfios espancando violentamente um desgraçado caído no chão. Foi-se a eles e sovou-os dizendo: «Cobardolas, seis galfarros a baterem num.» Eram agentes da PIDE e foi dentro. Mas nunca se arrependeu do gesto.

Um desgosto do avô Eduardo foi a instabilidade política dos últimos anos da Monarquia. O rotativismo não resolvia os problemas. Sucederam-se Hintze Ribeiro (Regenerador), Luciano de Castro (Progressista), João Franco, um aprendiz de ditador (Regenerador-Liberal), responsável pelo Regicídio, Ferreira do Amaral (em coligação), Campos Henriques (Regenerador-Dissidente), Sebastião Teles (Progressista), Venceslau de Lima (Regenerador), a quem votava especial consideração, por ter ido do Porto, onde foi Presidente da Câmara. E Teixeira de Sousa (Regenerador). Numa década, foi autêntica dança de governos, enquanto o país definhava. No entanto, falando desses tempos, lembro-me do avô Eduardo ter uma frase límpida e quase sublime: «Sabes, foram anos difíceis e eles mudavam muito mas, alguns, eram verdadeiros Senhores!» Indígena da Vitória, pergunto: Agora, onde estão os Senhores na política?

2013©HelderPacheco

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~ por Helder Pacheco em 31/07/2013.