Uma noite pela voz

Entrar no Sá da Bandeira é regressar ao paraíso perdido da minha infância. Às noites inesquecíveis da revista à portuguesa, com meus pais. De barrigadas de euforia naquele espaço de sermos felizes.

Assim aconteceu com o Tributo à “Voz dos Ridículos” lá organizado pelo incansável Nelson Duarte, em benefício de um programa que há 68 anos faz rir o Porto e, noutra forma de desertificação da cidade, nos arriscamos a perder.

O Tributo à “Voz” sobrevivente de um mundo em extinção, fez-se com uma noite de fados. 34, cantados por 17 fadistas em espectáculo memorável. Demonstrando que o fado – Património da Humanidade não é apenas lisboeta, assistiu-se a inequívoca afirmação de qualidade, nas sonoridades de um trio que integrava o contra-baixo e – ao meu ouvido jazístico – fundia o fado com o swing e os blues, na expressão poética das paixões e dos afectos, que nada tem a ver com vulgaridade, saída da inspiração de Pedro Homem de Melo, Fernando Campos de Castro ou Torre da Guia.

Noite incomparável de dádiva a uma causa ligada ao espírito solidário desta cidade. Noite de aplausos vibrantes, de comunicação participada (com o público cantando estrofes de vir a casa abaixo). Noite de homenagem ao honrado e inquebrantável tripeiro João Manuel que, na primavera dos seus 92 outonos, empolga plateias e balcões com os imprevistos da sua verve e a graça dos seus chistes.

Com a lembrança desta noite que guardarei na gaveta dos momentos plenamente vividos, aqui deixo dois apelos: 1.º ao futuro Presidente da Câmara, para que desenvolva um projecto do Sá da Bandeira como teatro do povo – onde estes espectáculos se multipliquem. 2.º à cidade, para que não deixe extinguir mais esta referência. Porque, se a “Voz dos Ridículos” acabar, morrerá com ela um pouco de nós. Da nossa alma.

2013©HelderPacheco

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~ por Helder Pacheco em 31/07/2013.