A ternura dos noventa

O meu amigo João Manuel fez 93 anos. Pessoa de bom gosto, brindou-se a si próprio com um bonito poema e partilhou-o comigo, seu admirador encartado. Ter-mina assim: «Abro a janela do Tempo / Desse Tempo já passado / Todo feito de A-mizade / E vejo o Tempo cansado / Juntamente com a Saudade / De tanto ter cami-nhado / Feliz por não ir sozinho / E, sem olhar para a idade… / Fecho a janela do Tempo / A sorrir / Devagarinho.» Mas, decano dos humoristas do Burgo, não perdeu a ocasião de dar um ar da sua graça noutro poema de que, por economia de espa-ço, cito o fecho: «Com os meus 93 / Talvez / Faça sol ou faça chuva / Já não tenho tanta graça! / Sou agora como a uva / Isto é… uma uva “passa”!»
No seu último jantar, o Grupo dos Amigos das Adegas e Tascos do Porto (que já o tinha distinguido com o Diploma de Honra) prestou simples homenagem a João Manuel. Como era uso dizer-se, aos brindes, o orador de serviço enalteceu-lhe espí-rito e juventude. E aproveitou para advertir o homenageado de que, segundo os va-lores vigentes em Portugal, já devia ter morrido pois, como aposentado, constituía enorme prejuízo para o erário público. E mais: que se pusesse a pau. Com a teimo-sia de se manter vivo, activo e vibrante de entusiasmo, um dia destes vai começar a pagar Contribuição Especial de Longevidade, retirando-lhe 90% da reforma.
De facto, são estes maus exemplos que contribuem para a falência do Estado e, por isso – para que não haja outros a copiá-los –, deve ser-lhes imposta uma aus-teridade radical. Se insistem em andar por cá, nesta Pátria abençoada, paguem sem bufar e não exijam que o governo lhes suporte o vício de viverem. Com assessores, PPP’s, submarinos, bancos falidos e reformas de deputados e políticos, o Estado tem muito onde gastar utilmente o dinheiro do Povo.

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 01/05/2014.