As Carquejeiras

A carqueja vinha de riba d’ouro trazida pelos barcos que nem a rabelos ou ra-bões chegavam. Carregavam-na em Melres, na Lixa, em Pé de Moura, na Lomba ou na Sousa e servia de acendalha aos fornos das padarias do Burgo.
Descarregavam-na no cais da Corticeira, dia após dia. Milhares de toneladas que, em molhos de 50, 60 Kg, foram, desde não se sabe quando, até aos anos 60 do séc. XX, transportadas às costas de mulheres através da cidade. Eram as car-quejeiras (chamadas ouriços humanos ou bestas de carga). Foi das mais duras pro-fissões conhecidas (com as cascalheiras e as carregadoras de carvão, sal e parale-los) e, além de rosto, tinham nomes: Florinda, Filomena, Rosa, Belmira, Elisa, Mari-ana, Palmira… Vultos de uma tragédia que o tempo apaga e que, entre 1928 e 1951, a magnífica Liga Portuguesa de Profilaxia Social denunciou, propondo solu-ções oficialmente ignoradas.
Algumas carquejeiras morreram a subir a Corticeira (300 m, 22.3% de declive – experimentem subi-la com 50 ou mais Kg às costas), outras resistiram até à velhice, sem alternativa para a sua condição. A elas dedicou o poeta popular Manuel Pinho os versos: «Ó Carquejeira / Que triste sorte a tua / Ias de rua em rua / Pisando tristes trilhos».
Por tudo isto e para que o esquecimento não apague a memória do drama, a minha amiga Arminda Santos anda a fazer campanha para que no alto da Calçada da Corticeira seja colocado um monumento – moderno, simbólico, incisivo – home-nageando aquelas «heroínas que, apesar de humanas, substituíram durante anos o trabalho da besta». Apoio incondicionalmente a ideia. Uma cidade que teve estômago para aceitar a indignidade devia, ao menos, ter agora a decência de um gesto de recompensa – ou pedido de desculpa – pela servidão degradante a que votou centenas de mulheres.

©helderpacheco 2104

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~ por Helder Pacheco em 01/05/2014.