Estou de acordo

Em 14.5.1998 escrevi no JN uma crónica que me custou amargos de boca. Desde antipatriota a doido varrido, variaram os comentários. Um «Homem para todas as estações» («a man for all seasons», segundo o original inglês) admoestou-me até por atacar o «maior acontecimento do século em Portugal!»
A crónica chamava-se “Porque não vou à Expo” e nela anunciava que não iria visitar aquela «fantástica e faraónica iniciativa do novo-riquismo galopante com que neste país do “faz de conta” se disfarça o subdesenvolvimento». E demonstrava os números das carências que nos amesquinhavam colocando-nos «dura, inapelável e vergonhosamente na cauda da Europa.»
Caiu o Carmo e a Trindade, mas sobrevivi e as leis da vida deram-me razão. Amargamos agora, a maioria (que não todos), as consequências de políticas de es-banjamento corruptor que conduziram milhões de portugueses ao desemprego, pri-vações, exílio e morte. E, o que é pior, à falta de esperança no futuro. Depois daque-le atentado ao Bem-Comum, o delírio devorista dos «patriotas» que nos assaltam quotidianamente consubstanciar-se-ia no Euro 2004 e na construção de estádios condenados à extinção.
Como dizia em 1998, «Quando se desbaratam recursos e energia numa osten-tação falsa e inútil, é um crime. Uma indignidade cívica, um ultraje às carências da população, uma ofensa à pobreza que, como marca indelével, alastra pelo país». Por estas e outras razões, não posso deixar de aplaudir a decisão do Presidente da Câmara do Porto de não candidatar a cidade à organização de jogos do Euro 2020. Comprometer os recursos da cidade por vaidade e jactância, sem conhecer as con-dições, vantagens e retorno do investimento seria prosseguir as velhas políticas de mentira que nos conduziram à situação actual. Quem não tem dinheiro não tem ví-cios.

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 01/05/2014.