O entrudo do meu descontentamento

O “Correio do Porto”, de 7.2.1826, traz-nos a primeira referência da imprensa ao Entrudo: «Saiu à luz: Os Desgostos de uma Senhora, ou Contradição de suas Ideias com as de seu Marido, respeito aos Brinquedos e Bailes de Entrudo.»
Depois, em 3.3.1840, o “Periódico dos Pobres” falava do «Santo Entrudo»: «Es-tes dias são destinados aos prazeres e aos divertimentos (…)». E com bailes, mas-caradas, cavalhadas e paródias foi decorrendo oitocentos. Por 1855 surgiram corte-jos de máscaras da Praça à Batalha. Em 1857, um préstito organizado partia de Mi-ragaia até à Batalha.
Em 61 aparecem mascaradas de estudantes e, nos anos 70, continuariam pe-las ruas. Em 1873, desfilaram o “Rei Bobeche e a sua Corte”. Em 76 a imprensa fa-lava no «grande n.º de pessoas que tem chegado a esta cidade a fim de aqui passa-rem as festas carnavalescas». Os anos de 1880 foram «insípidos e sensaborões» e o Carnaval «agonizava». Ao longo dos 90, voltaria aos salões.
A viragem ocorreu nos inícios do século XX, com o ressurgimento do Carnaval que «maravilhou o país inteiro e deu à cidade uma nova vida». Seria fundada a So-ciedade Carnavalesca Clube Fenianos Portuenses, e os carnavais tornaram-se de arromba. Em 1907, entusiasmaram multidões. Os sobressaltos da I República fize-ram-nos decair até 1939, quando os Fenianos o retomaram, para novamente se a-pagar. Em 1954 voltou com emoção e grandiosidade, até 1957. E morreu.
Enquanto mundo fora as cidades aproveitam o Carnaval para se internacionalizarem, encherem os cofres e promoverem a alegria dos habitantes, o Porto caiu na modorra. Adormeceu. Só tem Natal, esquecendo que era a pátria dos entrudos. Que diabo! Somos assim tão ricos que desprezemos um recurso estraté-gico da urbe? Afogados no cinzentismo, um dia acordamos e somos só cenário.

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 01/05/2014.