Ruínas por omissão

A ensaísta canadiana Naomi Klein é autora de sucesso mundial com “A Estra-tégia do Choque”. Nela denuncia os efeitos do neo-liberalismo (ou «capitalismo do desastre»), responsáveis pela destruição social de países e cidades onde, atrás do choque da austeridade e do empobrecimento, se escondem poderosos interesses sem rosto.
No Sri Lanka, depois do tsunami, uma operação de «reabilitação» apoiada pelo Banco Mundial expulsou habitantes e pescadores das zonas costeiras, promovendo a expansão turística. A par, procedeu-se à privatização da rede eléctrica e à flexibili-zação do mercado do trabalho. Em Nova Orleães, o furacão Katrina destruiu aloja-mentos sociais e os planos dos congressistas republicanos para a reabilitação as-sentaram na construção de hotéis e residências de luxo (os exemplos deixam-nos atónitos sobre o alcance da conspiração).
No Porto, o «capitalismo do desastre» é rudimentar nos resultados e eficaz na destruição. Grosseiro, porque sobre o caos deixa o vazio, eficiente porque destrói cirurgicamente. Este escrito azedo foi motivado pelo facto de ter recebido fotografias dos Bairros das Eirinhas e do Leal. Arruinados. Onde vai a cidade densa e proble-mática mas usufruída por moradores que só aspiravam a melhores habitações e a permanecerem nos seus territórios?
Tal como nas Carvalheiras – arrasadas há 50 anos – e nos Guindais, depois da partida dos habitantes, deportados para a periferia, ou na Fontinha, o nosso «capitalismo do desastre» arruína por omissão. Um dia destes desaparecem as Fontainhas e morre um Porto de gente que, há um século, espera a consagração do direito de pertencer a uma cidade significante. Uma cidade que deixe de expulsar populações em nome, dantes, da salubrização, hoje de qualquer urbanismo emergente cuja estratégia não descortino.

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 01/05/2014.