Viver ou sobreviver?

Pertencendo à categoria daqueles que o Estado gostaria de ver defuntos e jo-gando no grupo dos que já arrumaram as chuteiras, recebi da C.G.A. a declaração anual de IRS. Caiu-me o coração aos pés.
Embora soubesse da esbulha a que os – para o Poder – grisalhos inúteis estão a ser submetidos, os números assarapantaram-me. Quase 1/3 da pensão esvai-se em IRS. Mas a gula inquisitorial ainda leva mais uma sobretaxa da Retenção. E, a título de «Dedução» (sic), uma «Contribuição Extraordinária de Solidariedade». Já sem coração, caiu-me a alma aos pés vendo o que resta do que o Estado me garan-tira para o fim da linha, e não cumpriu.
Espoliado de parte substancial do meu instrumento de sobrevivência, pus-me a matutar: solidariedade com quem? Com os desempregados? Os excluídos da sociedade? Os idosos de reformas indigentes? Os doentes irremediáveis? Os cientistas sem ciência para investigar? Os jovens à procura do 1.º emprego? Os sem trabalho de meia idade e longa duração? Sim, com esses aceito ser solidário.
Mas não com os crimes de políticos, gestores e banqueiros que aprisionaram e arruinaram o Estado em proveito dos seus interesses. Com os vigaristas dos subsí-dios falsamente pobres. Com os parasitas dos empregos da babugem partidária. Com os devoristas dos «ajustes directos» que dão para toda a espécie de fantasias. Com a malandragem que finge que faz. Com os poluidores da essência da demo-cracia – chamada primado do Bem Comum.
É tempo de dizer basta! De exigir respeito pela dignidade das pessoas. Sobre-tudo das que têm um passado de esforço e compromisso, muitas das quais, neste momento, entram na fase terminal do «longo caminho para a noite». As que pode-rão dizer como Raoul Vaneigem (pensador belga contemporâneo): «Sobreviver está a impedir-nos de viver.» Chega!

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 01/05/2014.