Civilidade e serviço

Nos idos de 70 do século passado fui a Londres. Estranhamente conhecia, desde o estrangeiro mais à mão, em Vigo, até ao mais longínquo, em Istambul. Mas não Londres, cidade encantadora, ainda à inglesa. Nem islâmica nem a versão europeia de Nova Iorque.
Espantei-me com algumas coisas: a atmosfera dos “pubs”, o ambiente dos teatros, o Design-Center, recém-inaugurado, os parques. E a civilidade amável dos agentes da autoridade. Percebi que as mulheres-polícias não usavam bigode e assemelhavam-se a artistas de cinema, elegantes e gentis. Vivia-se a obsessão dos atentados do IRA, mas a cordialidade policial era evidente e contrastava com o carácter façanhudo cá do sítio, mais habituado ao cacete do que à intervenção cívica.
Muita coisa mudou desde então. De facto, a observância da lei deve, numa democracia decente, ser compatível com a defesa do Bem Comum e das regras de conduta que pautam as sociedades civilizadas. Por isso, não pode deixar de se aplaudir a acção desenvolvida pela GNR, identificando, apoiando e protegendo os milhares de idosos vivendo as solidões que o abandono e o despovoamento adensam. Mais do que tarefeiros de serviço, vemos as equipas da Guarda abordarem carinhosamente a população.
Também no Porto – cidade onde a solidão se transformou em doença mortal -, se justificava acção equivalente. Morre-se no Burgo por isolamento e insegurança (conheço o caso de uma senhora de 90 anos vivendo sozinha numa água-furtada da Vitória apoiada pelo jovem de 70 e muitos do andar de baixo). Os 33 963 idosos vulneráveis sinalizados pela GNR constituem um desafio à sua actuação e à dignificação da divisa «Pela Grei» (e quem assim se comporta merece a solidariedade da opinião pública no que respeita à retribuição material da sua insubstituível presença).

©helderpacheco2014

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~ por Helder Pacheco em 27/05/2014.