Dúvidas e desabafos

A minha rede social continua a funcionar. Eficaz e atenta à realidade, logo dá sinal à saída de algumas destas crónicas. Foi o caso da dedicada aos 93 anos do tripeiríssimo humorista João Manuel, a quem a Censura não calou a “Voz”, mas as leis do mercado sim.
Na minha rede social de conversas de boca, mais sorrisos, papel e tinta, o Snr. Correia – leitor do JN há mais de meio século – apressou-se a comentar aquele acontecimento: «Parabéns ao Snr. João Manuel e realmente tem de ter todo o cuidado e mesmo assim fica sempre a correr o risco de ser apanhado pelo Bando ao serviço dos Impostos». E, expressando a opinião da gente comum sobre o modo como está a ser tratada, acrescentou: «… Como dizia a minha Saudosa Mãe: estamos entregues à bicharada. Até quando? Não me parece que seja pelo menos para os meus dias, pelo que vamos lendo e ouvindo. O momento é de Grande aflição para quem tanto trabalho fez e para quem ainda trabalha. Muito mau, muito mau mesmo. A homenagem {a João Manuel] é também um aviso para os que têm mais idade, como eu, com 80 anos. Realmente estamos a viver um pedaço muito mau e vamos continuar a caminhada a ver o que mais virá…» Esta desesperança, este desconforto e desânimo no fim de uma vida de canseiras e honestidade é, porventura, a maior ofensa, o maior crime praticado contra a gente que confiava no país onde escolheu viver e foi enganada.
Quanto a mim, o simples facto de escrever «Saudosa Mãe» em maiúsculas, expressa a diferença entre a qualidade do carácter e da sensibilidade de cidadãos como o Snr. Correia e a dos tecnocratas, políticos e financeiros responsáveis pela calamidade social que assola esta democracia adiada que, quarenta anos depois de instaurada, nem sequer se dá ao trabalho de respeitar os portugueses honrados.

©helderpacheco2014

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~ por Helder Pacheco em 27/05/2014.