Quem acode às Festas

É sabido que tenho simpatia pelas teorias da conspiração. Creio que as socie-dades actuais são governadas por conspiradores que, a coberto das garantias que as democracias lhes concedem, se apropriam do Bem Comum em benefício próprio. E nem é preciso dar exemplos.
Essas são as conspirações de alto coturno. As dos milhões. Há, todavia, as menos evidentes mas eficazes e, não raro, afrontosas de certos valores e princípios. Quanto a mim, nos países – como o nosso – ávidos de cosmopolitismo e moderni-dade, desejosos de se libertarem do provincianismo que os atormenta como heran-ça, existe, larvar e corruptora, uma conspiração contra as culturas e tradições popu-lares.
É pura fantasia. De facto, o verdadeiro espírito cosmopolita emana do assumir profundo do carácter e personalidade de uma comunidade ou um país. Cosmopoli-tas são Torga, Aquilino, Agustina, Resende, ancorados no chão do seu húmus, an-cestralmente ligados ao código genético da História e do pensamento de um territó-rio de gente concreta.
No provincianismo cosmopolita que nos rodeia, tudo quanto cheire a povo é embaraçante. O povo é inculto e, fora o trabalhar (agora, para muitos, nem isso, porque não pode), serve para ver “A Casa dos Segredos”. O menosprezo, abando-no, desincentivo e, quando não, afronta das festas populares das freguesias portu-enses que, desde há anos, se vêm acentuando, são sintomas da conspiração das más vontades que suscitam. Estorvam a indiferença e o cinzentismo acomodado dos condomínios. Dizem-me que o Senhor do Padrão (do Carvalhido) está em riscos de extinção e que a Senhora da Saúde (de Paranhos – a maior romaria, tirando o S. João) atravessa dificuldades. A ser verdade, mais uma parte da alma portuense esvai-se. Um dia destes acordamos e, da cidade, só temos recordações…

©helderpacheco2014

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~ por Helder Pacheco em 27/05/2014.