Até quando?

Como o Porto tem o encanto de ser pequeno e todos se conhecerem, e suficientemente grande para se perder alguém por muito tempo, deixei de ver um grande amigo. Com as pressas de agora, nem me apercebi.

Trata-se de tripeiro impoluto, portista ferrenho, profissional de alto coturno, bairrista assumido e figura pública prestigiada. Dele, inesperadamente, recebi um mail dizendo: «que saudades! Estou agora nesta velha capital, que nos obriga cada vez mais a vir procurar trabalho e me afasta da minha cidade que tanto amo. Gosto de Lisboa, mas gostava de vir aqui como visitante mas não para ter de ganhar o que não consigo na minha terra. Cada vez mais o êxodo para a capital é grande, chega a assustar, parece que não existe mais Portugal!»

Dias depois, recebi nova mensagem: «Lisboa tem este problema, é que quando aqui vimos neste doloroso desterro em que me encontro, não me faltando amigos, não me faltando sol, não me faltando animação, me falta tudo! Faltam-me as nossas ruas muradas de granito, a vida boémia da nossa baixa cada vez mais viva, falta-me as gentes, falta-me tudo…» E adiante: «Vivo numa angústia sofrida, pois se gosto de Lisboa para visitar serei o homem mais infeliz do mundo se nela tiver que morar. Aqui sinto-me vazio, estranhamente vazio (…). Queira Deus que depressa volte a trabalhar no meu Porto. Viajar é sempre bom mas viver longe do Porto é uma angústia…»

Eis os frutos do centralismo mais tentacular, que o país até hoje conheceu. E os resultados de 50 anos de estado totalitário ferozmente centralizado, seguido de 40 anos de democracia prisioneira dos lóbis, interesses financeiros e teias políticas instalados na capital, que transformaram o país numa coutada gerida por capatazes jurídicos e mediáticos que tudo fabricam à sua medida.

Até quando?

2014©helderpacheco

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~ por Helder Pacheco em 02/08/2014.