Balancete São-Joanaeiro

Não quero ser saudosista. Em muitos aspectos, a vida (salvo a teia político-burocrática que a amarfanha) é melhor do que antigamente. E sei que as tradições mudam, estão constantemente a inventar-se e costumes são-joaneiros apreciados são cousas de novecentos.

Todavia, certas manifestações não têm de se travestir só para serem modernas. Países como Itália, Espanha, Grã-Bretanha, França, etc. mantêm ritos ancestrais na actualidade. (E não consta que sejam atrasados…) Passou o S. João. Para uns, grandioso, empolgante (não viveram a Festa repartida por mil lugares, com a Baixa estuante e as Fontainhas impantes de multidões em delírio). Para outros (que viveram a Festa anterior à pós-modernidade), o S. João já não é o que era (por exemplo – as ruas da Baixa iluminadas, como outrora).

Como me incluo entre os desmancha-prazeres das loas sobre a magnificência da Festa com meio milhão, passo a citar a opinião de dois formidáveis bairristas que me escreveram. Para um: «Ó menina, eu sou velhinho / Por modernices não corro / Não me dê com martelinho, / Dê-me antes com alho-porro!». Ou então: «No mundo em evolução / Nem a festa fica móvel. / Na rua, em vez de balão, / Hoje vão de telemóvel!»?

E outro dizia: «Já temos pelo S. João um palco na Ribeira – e não só – cantando Lisboa e Brasil. Qualquer dia ou noite o nosso S. João também vai emigrar. Onde está o Bairrismo? Como pode haver sorrisos tripeiros para quem em Lisboa diz que vai tentar falar à moda do Porto?» E rematava: «S. João veio indagar / O que o Porto já sentiu / Depois de muito escutar / Envergonhado fugiu…»

Entre o satisfeito com o cosmopolitismo do S. João e o desencanto da cidade entalada entre a realidade e a nostalgia, cada um interprete como bem entender o que se passa no universo são-joaneiro.

2014©helderpacheco

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~ por Helder Pacheco em 02/08/2014.