HELDER PACHECO: “O PORTO está numa ENCRUZILHADA!”

 Senhor do Portohelder-pacheco. Homem de provas dadas na defesa dos valores da cidade. Helder Pacheco, em entrevista exclusiva ao nosso jornal, toca em diversas “feridas” da cidade, da cidade que ele ama. O nosso entrevistado, além de colunista, tem uma considerável obra literária, maior parte dela relevando as gentes do Porto e a Invicta das tradições.

Helder Pacheco fez estudos de Belas Artes, Ciências Pedagógicas e História, nas universidades de Porto e Coimbra. Participou em cursos e seminários de formação nas áreas da Educação e Património Cultural em diversas universidades, entre as quais a do Ulster e Manchester. Foi ainda membro do Conselho Consultivo da Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) do Porto, tendo sido atribuídas diversas condecorações, como a Medalha de Mérito – Frau Ouro, da Câmara Municipal do Porto (1988), Medalha de Mérito Cultural da freguesia de Lordelo do Ouro e Grande Oficial da Ordem de Mérito (2006). É com Helder Pacheco que, sem papas na língua, vamos falar de seguida…

Como sempre, pergunta-se, em início de conversa: quem é, neste caso, o professor Helder Pacheco, e o cidadão, Helder Pacheco?

“Não há assim uma grande diferença. A personalidade civil – digamos assim – tem uma interferência da outra, e vice-versa. O que é que acho que um cidadão deve ser?! Deve ser um fulano cumpridor das suas obrigações para com a sociedade. Eu sou um portuense liberal e burguês…”

… e natural da freguesia da Vitória.

“E natural da freguesia da Vitória, há setenta e tais anos… 74. O meu avô era monárquico e o meu pai republicano, que era uma mistura explosiva na mesma casa, isto, logo numa época muito conflituosa. Eles viveram a I República e o início do Estado Novo. De qualquer maneira, com eles – que eram pessoas com uma honestidade à prova de bala -, aprendi que o bem-comum deve sobrepor-se ao bem individual. Ou seja, os interesses da Grei devem sobrepor-se aos interesses privados… individuais. Portanto, a defesa do bem-comum é um objetivo de qualquer cidadão que se preze. Eu até procuro nem cuspir para o chão! Um outro dia, deram-me um euro a mais num troco, e eu disse ao empregado: “olhe que você enganou-se” . Ele pensava que o engano era contra mim, mas não, era ao contrário. Com isto quero dizer que há regras, princípios e valores em prol do bem-comum e na defesa de uma sociedade justa”.

Foram esses os valores que aprendeu no seio da família?!

“Sim. Isso sou eu como cidadão e impregna-me, no meu trabalho, como autor. “

GRANDE PROBLEMA NA HISTÓRIA ESTÁ EM QUEM A INVENTA!”

Autor de muitas obras.

“O trabalho de autor impregna outro aspeto: um autor, como eu, que já publicou cinquenta obras – uma média de uma obra por ano -, além de artigos semanais, como por exemplo no “Jornal de Notícias”, obriga-se a uma grande disciplina e a um grande rigor. Um autor que escreve sobre a História da cidade; as suas memórias e tradições, tem de procurar ser muito rigoroso. O autor só pode ser respeitado se as pessoas souberem que “este tipo é rigoroso”.

A História tem muito que se lhe diga em termos de rigorosidade…

“O grande problema na História está em quem a inventa! Os factos são os factos! Sejam agradáveis, ou não, os factos são factos! Ainda hoje por exemplo (03mai14), ouvi uma notícia e fiquei logo com vontade de desancar nos jornalistas. Foi a morte de um homem que respeito muito…

… o professor Veiga Simão.

O professor Veiga Simão, que, quanto a mim foi o melhor ministro da Educação dos últimos 50 anos. Os jornalistas começaram por dizer que foi o último ministro da Educação do salazarismo, depois do Estado Novo, quer dizer, colaram-no ao Estado Novo, como se ele fosse salazarista, ou fascista. Tomara muitos democratas atuais – democratas de meia-tigela – de terem a categoria intelectual e cívica do professor Veiga Simão. Ele era um verdadeiro democrata! O trabalho dele como ministro, na fase final do marcelismo, foi o da preparação de Portugal para a democracia.”

“VEIGA SIMÃO ERA UM HOMEM COM UMA VISÃO MODERNA DA SOCIEDADE”

Portugal democrático no qual foi bem aceite integrando as listas do Partido Socialista e sendo depois ministro em dois governos: um do Mário Soares e outro de António Guterres.

“Exato. Veiga Simão era um erudito; era um homem com uma visão extremamente moderna da sociedade. Aliás, ele era um homem formado em Inglaterra. O que significa o seguinte – a propósito dizer, entretanto, que o meu pai foi um opositor ao salazarismo -: que eu não posso deixar de elogiar alguns vultos conhecidos do tempo do Estado Novo, que considero gente exemplar. A isso é que eu chamo de rigor histórico. Gostaria muito de elogiar toda a gente da democracia, mas não posso!”

E a percentagem das pessoas da democracia que não pode elogiar é elevada?

“Eu acho que sim. Esta é uma democracia conspurcada pela corrupção! Nas democracias onde há corrupção é evidente que a percentagem de vigaristas tende a aumentar”.

“É NO TERREIRO DO PAÇO QUE GIRAM (SOB A FORMA DE OPORTUNISTAS) AS ANOMALIAS DA SOCIEDADE”

E, no caso concreto do Porto, sendo conhecida como a cidade da Liberdade, não conseguiu libertar-se dessa gente?

“O Porto sempre teve menos gente que a corte do Terreiro do Paço.”

Mas teve a Praça Nova, em meados do século XIX…

“Na altura já era mais corrupto! Mas é no Terreiro de Paço que giram os milhões; que giram os grandes interesses; é lá que giram as anomalias de uma sociedade, que, hoje, chegam mais depressa a Lisboa, sob a forma de oportunistas, do que a uma cidade de província, como é o caso do Porto”.

O Porto ainda é uma cidade de província?!

“Não há mal nenhum que o Porto seja uma cidade de província. O que é que eu entendo por uma cidade de província? É uma cidade onde toda a gente se conhece. É uma cidade onde existe um forte sentimento do território, do bairrismo. O bairrismo é amor ao bairro. Apesar da descaracterização – o Porto mudou, sociologicamente, da cidade do operariado, do antigo lavrador, para os bairros sociais- há ainda, por exemplo aqui em Lordelo do Ouro, que há muita gente que tem uma forte ligação ao sítio. Depois, um certo conservadorismo de rituais e de hábitos, como ir ao mesmo café e à mesma livraria e até a dar o passeio dos tristes pela baixa, e, portanto, o apego aos valores, ou seja, a família. No Porto ainda há alguma gente que, esforçadamente, e, deliberadamente, quer ser cosmopolita, mas não se é cosmopolita por se ser um prá frentex. Não! É-se cosmopolita com a visão do mundo que se tem.

O máximo cosmopolitismo que conheço é Torga, de um aldeão de Trás-os-Montes, ao qual só lhe faltava a sachola na mão e os tamancos assentes na terra…

Ele viveu em Coimbra, onde veio a falecer.

“Acabou por viver numa cidade, é verdade, mas nunca deixou de falar “axim”, à moda lá de cima, da terra dele, e continuar a ser um aldeão. No entanto, e na minha opinião, não há mais cosmopolita, ou universalista – que são os valores que ele escreve e defende – melhor do que ele. Os gregos, que são o máximo do cosmopolitismo, eram atenienses…

…Atenas, a Cidade-Estado.

“…ora bem! Portanto, eu penso que o Porto é demasiado pequeno. O Porto só tem, neste momento, 240 mil habitantes…

…tendo em conta a Área Metropolitana já não é bem assim?!

“Está bem, mas pronto! Quando falo do Porto, falo do Porto cidade. O Porto cidade foi planificado nos anos 60, pelo arquiteto Robert Auzelle e sua equipa, para meio milhão de habitantes no ano 2000. Portanto, algo correu mal…

“O PORTO É VÍTIMA DE UMA DESASTROSA POLÍTICA DE HABITAÇÃO SOCIAL”

E o que correu mal?

“O Porto foi, e é, vítima de uma desastrosa política de habitação social, por uma confessa insensibilidade aos valores tradicionais da sociedade portuense, designadamente, na destruição de colmeias populares-operárias no centro, em nome da higienização e salubrização das ilhas. As ilhas foram destruídas e as pessoas acabaram por ser desterradas”.

Mas ainda há muitas ilhas.

“Há muitas, é verdade, mas a última grande ilha, ou bairro operário, o do Leal, ao Bonjardim, foi destruído no ano passado. Ora, o que acontece é que a política de reabilitação dessas zonas deveria ter sido feita de outra maneira. Ou seja, deveria reabilitar-se o bairro dos operários, as ilhas, reabilitar-se a habitação popular, e nunca centrifugar as pessoas. Se assim fosse, teríamos, muitas zonas do centro, completamente habitado e em casas confortáveis.

Se for ver algumas das grandes destruições, pode começar pelo bairro das Carvalheiras – ao lado da rua de Gonçalo Cristóvão -, que era um dos maiores do centro da cidade, foi demolido há 50 anos, mas, por lá, continuam as ruínas. Nas Eirinhas, Bonfim, começaram a destruir aquilo há 20, 30 ou 40 anos, hoje vai lá e só vê ruinas. Onde estão as pessoas? Algumas, conheço-as, e estão na Senhora da Hora (Matosinhos). Houve, portanto, uma política desastrada, em nome de quê? Em nome da terciarização do centro…”

… com Serviços?!

“Sim. Mas, hoje, lá, não há Serviços. Repare: o despovoamento do centro correspondeu com o acabar dos cinemas, dos cafés, e do comércio.”

“O CONGELAMENTO DAS RENDAS LEVOU À DESTRUIÇÃO DO EDIFICADO”

Acabou a vida!

“Acabou a vida! Isso não foi casual. Pode dizer-se: “Foi o demónio que andou por aqui!”. Não! Foram, isso sim, políticas planificadas, erradas e endógenas. A culpa é da cidade, agravada por uma política desastrada do Estado, através da Lei das Rendas e do seu congelamento. O congelamento das rendas levou à destruição do edificado. Há senhorios a receber 10,5 ou menos euros de renda. Esses senhorios não podem fazer obras! O Estado congelou as rendas num momento em que não havia inflação, o objetivo era estabilizar os custos sobretudo para as classes mais débeis, mas a partir do primeiro choque petrolífero tudo abanou. O escudo começa a desvalorizar, e há a inflação. Depois há o segundo choque petrolífero e os problemas financeiros agravam-se ainda mais! No entanto, as rendas continuam na mesma.

Quanto à desindustrialização, foi algo a que a cidade não podia fugir. Foi-lhe imposta! Todas as cidades industriais sofreram do mesmo. Estive em algumas, como Manchester e Newcastle, e vi os efeitos desastrosos da desindustrialização, principalmente em Manchester: a partir das seis horas da tarde ninguém andava na rua porque tinha medo. A cidade ficava deserta”

Não era pelo nevoeiro?

“…não! Estava tudo deserto pelo facto de só utilizarem a cidade para trabalhar. Aqui no Porto, as fábricas estavam localizadas fora do centro…”

Bonfim…

“E Campanhã, Lordelo… Em Newcastle, por exemplo, eram os estaleiros, mas mais as minas. Fecharam as minas. Outro exemplo: Detroit, no Estados Unidos é, hoje, uma cidade falida, devido à crise na indústria automóvel. Quando a indústria se deslocalizou para a Coreia do Sul, para a Índia, etc etc, é evidente que essas cidades tinham de entrar em crise”.

UMA CIDADE QUE PERDE UM TERÇO DO EMPREGO; MAIS DE UM TERÇO DO COMÉRCIO E CEM MIL HABITANTES SÃO FATORES GRAVES ISOLADOS, AGORA… JUNTE-OS!”

Regressemos cá. O Porto ganhou muito, e em tempos de revolução industrial – meados do século XIX, princípios do XX -, com a migração de gente oriunda de Trás-os-Montes. Minho e por aí fora. A cidade evoluiu

“O verdeiro “boom” do Porto foi dado com a indústria, mas quando a indústria acaba, a cidade perdeu mais de cem unidades industriais.”

O aparecimento das ilhas – bairros de operários – revelam, por si só, o acentuado crescimento demográfico da cidade, ao invés do que hoje acontece.

“É evidente. Mas, pronto! Depois, com a desindustrialização, o Porto perde um terço da população. Portanto, uma cidade que perde um terço do emprego; perde mais de um terço do comércio e perde 100 mil habitantes… estes fatores isolados já são graves, agora, junte-os! É uma mistura explosiva! O Porto teve que aguentar isso! Não admira, assim, que tenha sido uma cidade que, nos últimos anos, tenha vivido uma situação crítica.”

Havia, por cá, indústrias emblemáticas e de projeção nacional…

“… a fábrica de Salgueiros, do Lordelo, as indústrias metalúrgicas, que eram as fundições, a Fábrica do Cobre, pronto… foram mais de cem unidades industriais que desapareceram e um terço da população a que a elas estava ligada. O Porto tinha um problema de base, que era o de estar ligado ao têxtil e à fiação. Não era uma monoindústria, como, por exemplo na Covilhã, que teve o mesmo problema, mas a uma escala mais pequena.

A desindustrialização no Porto era inevitável! O capitalismo quando começou a ver mão-de-obra mais barata na Ásia deslocalizou-se e pronto! Deveria, na altura, ter-se começado a pensar no lançamento de uma alternativa à desindustrialização.”

“PARA FUGIR AOS 20 MIL DESEMPREGADOS, A PRIMEIRA QUESTÃO É A DO PORTO SER UM GRANDE HOTEL”

E qual seria essa alternativa?

“A do Turismo. A política de Turismo que se encontra de momento no Porto e que começou há meia-dúzia de anos e já está a surtir os seus efeitos: Se tudo correr bem, em 2015, o Porto receberá três milhões e meio de visitantes.”

Mas, acha que o Porto tem de ser um grande hotel?

“Para fugir aos 20 mil desempregados, a primeira questão é a de ser um grande hotel. As duas grandes alternativas que o Porto tem à desindustrialização, é uma grande Universidade…

…já o é, ainda que em parte.

“Está a começar a ser! Quando a Universidade do Porto se colocar no ranking das melhores cem da Europa, então já é! É preciso um grande centro de investigação. Há um grande amigo meu, que é um famoso cirurgião, especialista em joelhos, que está a receber jogadores de futebol de toda a parte para serem operados cá, e já estão a vender pacotes de férias com operação… é o turismo médico! Ele já operou, por exemplo, quase toda a seleção de críquete do Paquistão.”

Curioso. Considera que o Porto é a capital do noroeste peninsular?

“O que quero é que o Porto dê a volta e avance, agora não quero saber se o Porto é capital ou não. O que me interessa é que o Porto consiga ganhar a Bilbau, a Nice, a Marselha… o Porto está a competir com esses, não com Milão, nem com Paris, que tem 17 milhões de visitantes. O Porto recebe três milhões e meio. Nem com Lisboa concorre! Lisboa não é do nosso campeonato. O nosso campeonato é outro! O que me interessa é que no nosso campeonato sejamos muito bons”.

Mas, tendo o Porto sido escolhido como o melhor destino europeu…

“… com alguma batota: eu votei para aí dez vezes! (risos). O que eu quero é que o Porto ganhe. O Porto e o FC Porto…”

Do FC Porto falaremos daqui a pouco.

“Pois!”

“SER DA SÉ ERA UM CRIME. UM ESTIGMA: O PIOR DE TODOS!”

Quando é que começa, na realidade, a sua paixão pela cidade do Porto? Na freguesia da Vitória, onde nasceu?

“Eu nasci na Vitória, mas não foi na Vitória dura! Eu nasci na Vitória do outro lado dos Clérigos. Há duas Vitórias. O meu bairro não é o dos Caldeireiros, nem o da rua da Vitória…

Quase todas as freguesias têm essas diferenças geográficas em termos sociais.

“Pois. Saiba que eu fui pela primeira vez ao Barredo tinha quase trinta anos. Nós não íamos ao Barredo! O Barredo era um gueto!

Mas, não iam por medo, receio, ou por que era proibido misturar-se com outra classe social?

“Não se ia, pura e simplesmente! Aquilo era um gueto. Só entrei la após o 25 de Abril. Aliás, antes disso não se entrava. Ainda, hoje muita gente não entra porque tem medo… o que é errado! O Barredo é um dos sítios mais seguros do Porto. Eu não ia para a Sé. Já era homem, com barba na cara, quando atravessei a Bainharia. Nós tínhamos territórios!

Portanto, tive a sorte de ter um avô e um pai muito portuenses… em estado de graça. Eles pertenceram à geração das pessoas que vieram para cá ainda novos. Depois assumiram a cidade. O meu pai viveu, no Porto, durante oitenta anos. A minha mãe é que era tripeira de gema. Portanto, tudo se vivia na baixa…

OS PASSEIOS “MONÁRQUICOS” E “REPUBLICANOS”

Havia, na altura – ainda há- uma grande diferença e consequente distanciamento de classes, isto entre burgueses e operários…

“Era uma diferença de território. Ser da Sé era um crime. Era um estigma: o pior de todos! Então, o que é que acontece? Eu, ao sábado, saía com o meu avô para passear. Era na altura em que se andava de carro elétrico. Então, os nossos passeios eram ir ao Palácio de Cristal…

… ao antigo?

“… ao antigo! Ao Palácio verdadeiro! Palácio que estava sempre com atividades, exposições, bailes… desporto. Íamos também muito para a Foz. Esse era um passeio tradicional. Íamos ao “Bem Arranjadinho” que tinha uns queques maravilhosos. Portanto, com o meu avô era um tipo de convívio, já com o meu pai saía aos domingos e, às vezes, à noite. O meu pai era um grande desportista, quer de físico, quer de bancada…era um grande academista do Académico do Porto! Depois, foi praticante de remo e timoneiro no Fluvial, mas não falhava um jogo de futebol, de hóquei em patins…

De quais passeios mais gostava: do monárquico do seu avô, ou do republicano do seu pai?

“Mais do republicano! Então, com o meu pai, ia às vezes à noite – recordo-me da luta livre no Palácio, que era um espetáculo fantástico…”

…luta livre?

“Luta livre americana, com um famoso Barrigana. Ainda tenho uns bilhetes da altura. E também havia boxe. Era no Palácio, no Parque das Camélias e no Parque do Fluvial, e tudo aquilo cheio de gente, porque o Porto estava habitado no centro. Nós vivíamos na Rua do Correio que estava habitada de uma ponta à outra. O meu pai fazia parte de um grupo chamado “Os Profiláticos”, que era um grupo de taineiros… especialistas em tainas…

… tainadas?!

“Tainas. Sobretudo comes-e-bebes. E eles davam passeios de bicicleta e praticavam desporto, principalmente o basquete. Ah! Não falhávamos um jogo de basquete.

AS TABERNAS, ADEGAS E CASAS-DE-PASTO DO PORTO… EM ESTUDO

No Vasco da Gama?!

“No Vasco da Gama ou no Académico. Então o que é que acontece? O campeonato de basquete do Porto tinha, para aí, dez clubes na distrital. O campeonato de hóquei em patins tinha outros tantos clubes na distrital. Quanto ao andebol, recordo-me de um Portugal-Espanha, no Estádio do Lima, completamente cheio. Essa seleção nacional era a equipa do FC Porto menos um…um que era do Sporting.

Andebol de onze. Isso demonstra que havia vida na cidade.

“Ainda, agora, um amigo meu – felizmente tenho bons amigos – que é coordenador informativo para todos os meus textos, mora em Gaia, e faz parte dos meus escravos. Ele está a ler desde o número um “O Comércio do Porto”…

…coitado do homem, pelos anos que o jornal tem.  O “Comércio” foi decano dos jornais diários no continente, onde já trabalhei, mas pronto, já encerrou portas.

“Coitado?!Não. Ele gosta! Ele está aposentado e foi ele que se ofereceu para fazer esse trabalho. Eu ajudo-os (aos escravos) naquilo que posso, e em troca eles oferecem esse trabalho e, neste caso, mais recente, sobre um estudo.”

Qual estudo?

“Um estudo sobre as tabernas, adegas e casas-de-pasto do Porto. Eu faço parte da direção do Grupo dos Amigos das Tascas. Portanto, há um amigo que descobre tudo o que tem a ver com os tascos, relacionado com o “Comércio do Porto”, digitaliza, manda-me por internet, e eu, envio os documentos para um vizinho meu, que era engenheiro…

… um outro “escravo?

“Outro “escravo”, que me vai informatizando tudo. Depois, eu escrevo o livro…

É avesso à informática?

“Sou avesso dela, mas sirvo-me dela como escravatura. Para mim, o computador é um eletrodoméstico. O eletrodoméstico não tem inteligência! O computador sem o dono é nada! O que é que acontece: um amigo meu mandou-me bilhetes de cinemas, e por trás com anotações de filmes, tudo isto revela o grande dinamismo da baixa do Porto… dos cinemas da baixa do Porto.”

“A PESTE BUBÓNICA ACORDOU A CIDADE!”

Fala em dinamismo. Lembro-me de dinamismo na baixa do Porto. Íamos fazer o passeio dos tristes, mas havia lojas com montras, havia os cinemas com gente, as tais tascas com gente e gente nos cafés abertos até às tantas. Quando é que se perde tudo isto?

“O grande ataque à cidade começa nos inícios dos anos 40 do século passado. É aí que a coisa começa e começa com a questão da habitação social.

O porto em meados do século XIX era a cidade com piores taxas de mortalidade na Europa. Chamava-se uma cidade mortuária. Ricardo Jorge denuncia isso em três ou quatro obras. A maior taxa de mortalidade por tuberculose – a pior da Europa – de tifo e cólera, Em 1899, o Porto tem uma epidemia impossível de existir na Europa: a peste bubónica. Foi, nessa altura, que a cidade acordou. Assustou-se! A peste matou cento e tal mas podia ter matado metade da cidade. O Porto teve sorte. Até essa altura não havia qualquer visão sobre a salubrização e, sobretudo, sobre a salubrização da habitação popular.”

Vamos, outra vez, para as “ilhas”.

“As ilhas foram um negócio muito rendoso para muita gente que nelas investiu. As “ilhas” nem sequer tinham licenciamento da Câmara. Havia uma porta virada para a rua, que se fechava, e as “ilhas” ficavam para trás. Os ingleses chamaram a isso “a cidade profunda”. Em 1899, há um sobressalto na cidade: “O Comércio do Porto” lança uma campanha de construção de habitação social. A verdade é que os primeiros bairros do “Comércio do Porto” froam uma gota de água, mas eram tão bons que ainda existem, por exemplo, o do Monte Pedral, o da Arrábida e o das Antas. Mas, no fundo, tratava-se de uma gota de água!

Os governos continuaram a ignorar as “ilhas”, o mesmo acontecendo com os responsáveis camarários que faziam vista grossa ao problema, assim como os nossos empresários, que deviam ser os piores que havia na Europa, porque donos das fábricas na Inglaterra, em França, ou na Alemanha, construíam ao lado das suas empresas bairros para os operários”.

Mas, aqui, no Porto também.

“Contam-se pelos dedos!”

“O QUE SE FEZ NA I REPÚBLICA, AO NÍVEL DAS POLÍTICAS SOCIAIS, AINDA HOJE É, PERFEITAMENTE, MODELAR!”

Recordo-me do empresário Manuel Pinto de Azevedo…

“…esse era um príncipe! Em trezentas fábricas esse era um caso. A Fábrica de Salgueiros tinha alguma habitação operária, e havia ainda os Marinhos que tinham um bairro operário na Rua de Aníbal Cunha. Eram três! Os de Manuel Pinto de Azevedo são mais tardios: anos 40/50”.

Quer dizer que os empresários da altura estavam-se nas tintas para a questão das “ilhas”?

“Era uma caraterística da altura, mas, ainda hoje acontece o mesmo. A culpa do estado em que se encontra a indústria portuguesa, não é só pelo facto do País ser excêntrico, é, sobretudo, a falta de mentalidade empresarial tradicional, que agora, parece começar a mudar”.

Naquele tempo era assim.

“Naquele tempo era assim!”

Os ingleses estavam cá, mas também em nada ajudavam, nesse contexto?!

“Não. Os ingleses não dominavam a indústria. O domínio inglês era sobretudo nos vinhos, mais concretamente, no Vinho do Porto. Os ingleses, em termos de indústrias sediadas no Porto, tinham a “Coats & Clark”  e a “Graham’s “ , com pouca relevância no ponto de vista global.

É o governo da I República que tenta dar a volta à situação. A I República – que é tão estudada por salazaristas e salazarentos, vendo nela a origem de todos os males – lutou contra problemas terríveis. Esses aprendizes de feiticeiros, não fazem ideia do que foi a intervenção portuguesa na I Guerra – Portugal foi obrigado a intervir por causa das colónias -; a permanente luta contra os monárquicos, e a sua própria divisão, ou seja, a sabotagem interna. Não era preciso deitar abaixo a I República, porque ela caía por si. Quando o Partido Republicano toma o poder divide-se logo.

Mas o que se fez na I República, ao nível das políticas sociais, ainda hoje é, perfeitamente, modelar!”

O RETROCESSO NA HABITAÇÃO SOCIAL À CUSTA DO “KARAVANZARALHO”

Com especial destaque para escolas?!

“Na Câmara do Porto destaca-se um homem chamado Eduardo Santos Silva, que lança as bases para uma política de habitação operária: de creches, de escolas primárias e etc. A I República constrói, assim, os primeiros bairros operários oficiais que ainda estão aí. Mas, essa obra continuou, na altura, a ser uma gota de água, porque o défice era para aí de 30 mil habitações, e eles só construíram 700 ou 800.

No final os anos 30 do século passado, um grupo de arquitetos da Câmara lança o projeto do primeiro condomínio de habitação social, portanto, já não as casas individuais que quer “O Comércio do Porto” quer a I República promoveram, mas a construção coletiva. É, então, lançado o projeto do primeiro bloco de habitação social, que foi na rua do Duque de Saldanha, ao Bonfim, que ainda lá existe e recomenda-se.

A ideia era não afastar as pessoas da área – o Bloco era destinado às pessoas das ilhas de S. Vítor – e construir habitação coletiva. A Câmara constrói, mas o presidente da Câmara, da altura, descobre que os arquitetos se tinham inspirado em habitação social da chamada “Viena Vermelha” – bairro de Viena chamado Karl-Marx-Hof. Quando ele descobre isso… vai aos arames. Ele, com o ministro das Obras Públicas da época, rejeita, assim, a criação de “ilhas aéreas”… “jamais”!

Essa do “jamais” também tem uma versão recente…

“Bem! (risos) Dizem eles: “querem fazer disto um caravanzaralho!” Parece uma palavra feia, mas não é aquilo que parece. “Karavanzaralho” é uma palavra de origem turca, que quer dizer a tenda dos beduínos no deserto. O presidente da Câmara, de então, é que diz que querem fazer disto (e com “c”) um “caravanzaralho”. A ideia, na realidade, era a de libertar uma ilha, as pessoas passarem a viver num bloco; regressando, depois, as pessoas à respetiva ilha, depois da mesma ter sido reabilitada. Se isso fosse para a frente, a esta hora, toda a zona de S. Vítor estava reabilitada!

Essa ideia foi, então, travada, e como a habitação social não podia ser construída no centro, foi-se para a periferia, tudo com casas térreas e individuais. Fizeram o Amial, as Condominhas, ete e etc, que também não resolviam o problema da habitação na cidade! Quando acordaram para a realidade começaram a construir na periferia os grandes bairros.

“CONSTRUIRAM-SE NOVOS GUETOS PERIFÉRICOS”

Nessa altura faltavam casas, hoje, parte delas estão devolutas…

“Nessa altura estava a faltar casas para as pessoas com menos rendimentos. Toda essa política levou ao abandono do centro da cidade… as pessoas começaram a deslocar-se…

… para Gaia, Gondomar, Maia e por aí fora.

“Esse é outro erro que ainda analisamos, que é a ação especulativa dos investidores que investem no Porto em terrenos muito caros, com construção muito cara, e rendas também muito caras. O que é que acontece? Uma casa que, no Porto, custa meio milhão de euros, custa em Rio Tinto 80 mil euros. Portanto, o jovem ou as pessoas com menos recursos abandona o Porto.

Mas eles não fazem lá vida. A casa não passa de um dormitório, porque a vida, em si, é efetuada aqui na cidade e até no bairro de onde nasceram ou passaram a sua juventude.

“Aí, sociologicamente, a aberração ainda é pior, porque não conseguiram fazer comunidades! Fizeram novos guetos periféricos! Ao mesmo tempo, entopem o trânsito porque usam frequentemente o automóvel para ir para as suas casas…

… mesmo com a existência do Metro.

“O Metro veio, até certo ponto, compensar a dificuldade de deslocação para a periferia, mas pode ter um efeito também perverso, ou seja, o de aumentar o número de gente que tenciona viver na periferia.

E o Grande Porto não ganha com isso?

“O Grande Porto só será forte se tiver um centro do Porto forte. Sem o centro do Porto forte, não haverá Grande Porto forte.”

Estas festas no centro do Porto – as movidas – não vieram trazer uma nova vida à cidade? E, em termos culturais, a projeção internacional das Casas da Música e de Serralves não dinamizaram também a cidade, quanto mais não seja, em termos turísticos?

“Houve dois grandes saltos. E agora vou falar, politicamente, incorreto… já não estou em idade de falar politicamente correto. O dr. Rui Rio com quem eu, politicamente, não tinha qualquer afinidade, foi o melhor presidente para a cidade, entre muitos daqueles que o atacam e jamais farão o que ele fez, porque, sem ele, havia duas coisas que não tinham acontecido: primeiro, o início da reabilitação da Baixa, com a criação da SRU…

…da qual fez parte.

“Fiz parte do Conselho Consultivo, mas fiz parte e de graça, não andei a mamar como andam a mamar os membros dos gabinetes. Nas comissões da Corte do Império anda tudo a mamar! Eu nunca mamei um tostão com este trabalho. Mas, adiante.

Segundo, sem o início da reabilitação da Baixa, mesmo com todos os problemas e erros, não haveria um “boom” do turismo. Com uma Baixa em ruínas, com a rua de Mouzinho da Silveira e os Loios a caírem de podre, com as ruas esburacadas, não acredito que os turistas viessem para cá. É a conjugação do início da reabilitação da Baixa com os erros que possa ter – que teve, eu próprio apontei alguns – associado, por outro lado, a outra coisa que nós devemos a um governo, não sei se ao de Guterres, que foi a grande remodelação do aeroporto do Porto. Sem isso não haveria o “boom” turístico que se conhece.”

Mas, o Porto também, e ainda, são as pessoas.

“Pois. A Universidade do Porto, por exemplo, tem três mil e tal estrangeiros que, só esses, alimentam a movida noturna. Se eles cá se instalarem, mais os jovens quadros que cá trabalhem, eles serão portuenses por afinidade, por moda, mas não portuenses por ADN. Eles vão ter que criar um ADN.”

“EU SOU A CIDADE QUE TRAGO DENTRO DE MIM”

A cidade do Porto foi inventada?

“Esta cidade foi feita à custa de muito trabalho, de gente de muito trabalho… de comerciantes, que foram por aí acima, em vez de irem por aí abaixo. O Porto teve uma ligação fortíssima com o norte da Europa e depois com o Brasil onde, começaram a fazer negócio, com a importação de açúcar, fazendo do Porto um entreposto com a Europa.”

Os jovens interessam-se por estes factos que fazem a nossa história, os quais o professor lhes conta, falando ou escrevendo?

“Há uns que se interessam. É evidente que o meu público privilegiado é o de uma certa idade, que vive estas coisas com uma certa nostalgia, de um paraíso perdido… de um passado perdido. Mas, tenho encontrado jovens muito motivados para estas coisas. No início de abril fiz uma intervenção na Câmara Municipal do Porto, enquadrado na iniciativa “Os Objetos na Cidade” – um ciclo que vai decorrer até ao final do ano -, e o primeiro tema era “Uma Vista Sobre a Cidade”, a sala estava a abarrotar e, sobretudo, com gente jovem e de meia-idade. Eu disse o que disse, e terminei com uma frase de um amigo meu, o professor catedrático Albano Estrela, que vai ser epígrafo do meu próximo livro…

Qual é o título do livro e quando vai sair?

“Sairá para o ano. “Porto: Crónicas da Cidade Por Dentro” e é uma edição comemorativa dos meus 25 anos de cronista no “Jornal de Notícias”. É muito tempo como cronista de um jornal. Decidi, então, comemorar a data publicando 150 crónicas atuais, mais duas que é a primeira e a mais controversa de todas.

Mas, antes de contar isto queria o meu raciocínio. Então, eu terminei a minha intervenção com a frase do Albano Estrela que é “eu sou a cidade que trago dentro de mim”, uma frase que, tomara eu, tê-la inventado. Depois, no fim, as pessoas foram ao terraço da Câmara ver a paisagem sobre a cidade, e apareceu um jovem, muito comovido, a pedir-me para lhe repetir a tal frase com que terminei a minha intervenção.

Pronto! A primeira crónica do livro – a que abre – é de há 25 anos e dedicada aos castanheiros que vendem castanhas e, depois, a crónica mais controversa de todos os tempos que escrevi sobre a Expo 98 e o seu potencial descalabro. Na altura foi muito criticado, mas a verdade está aí!

“UMA DEMOCRACIA SEM JUSTIÇA E DIMENSÃO SOCIAL É UMA… FANTOCHADA!”

Como analisa o atual estado em que se encontra o Estado?! Se calhar voltaremos a falar em “descalabro”?!

“A responsabilidade pelo descalabro político, financeiro, económico do país é da responsabilidade dos partidos políticos. Estes partidos não têm dado provas que sejam capazes de mudar para começarem a construir uma democracia baseada no rigor e nos seus verdadeiros princípios. Uma democracia sem justiça social e sem dimensão social, não é democracia… é uma fantochada! Estes partidos até agora não deram provas de fazer a mudança. Assim sendo, vai ser necessário inventar-se outros partidos. Ou estes mudam, ou, então, vai ser preciso discutir-se sobre se as democracias do século XXI têm de ser iguais às do século XIX! Saiba-se que, no século XIX, inventou-se, em Portugal, o rotativismo, cuja a consequência foi a destruição do regime monárquico: ora, governava o Partido Progressista; ora, o Partido Regenerador. E andaram assim! A situação atual é a mesma! Para clientelas que giram à volta, eu duvido que o objetivo dos partidos políticos em Portugal seja a defesa do bem comum… da justiça social. Eu não defendo aquela ideia do Otelo – não sei se foi verdade ou mentira – que, em Estocolmo, terá dito que nos em Portugal queremos acabar com os ricos, e, lá, lhe terão respondido – e bem! – que o importante era acabar com os pobres.” (risos)

“AS CANDIDATURAS INDEPENDENTES DEVERIAM CHEGAR À ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA… JÁ!”

O importante é acabar com a pobreza!

“Sim. O que interessa é acabar com a pobreza. Tem de haver uma nova maneira de entender a democracia. Este é um regime tão fatalista, tão dogmático, e tão circunscrito aquilo que é a ditadura dos partidos, e quem começar a dizer estas coisas é considerado antidemocrata. Eu não quero nenhuma ditadura, quero é uma melhor democracia. Entretanto, penso que temos de começar a discutir uma coisa: se no século XXI as democracias parlamentares devem, ou não, seguir o modelo do século XIX? Ou se pode haver outra maneira?

A eleição de um independente, que não sai dos partidos, é uma bofetada no statu quo, e depois o início do entender de uma nova maneira de fazer política em Portugal. Defendo que as candidaturas independentes deviam chegar à Assembleia da República… já! “

Devagarinho, devagarinho … já estão a discutir isso.

“A Assembleia da República deveria ter 100 deputados no máximo. Isso não agradaria a certos partidos, porque alguns ficariam de fora. Depois: candidaturas independentes. Mais: círculos uninominais – o deputado de Lordelo respondia perante Lordelo sobre o que ele tem feito. Terceiro: Considero exemplar a maneira como, depois de não ter maioria absoluta, um independente assumir a governação de uma Câmara. Mas, e também, a atitude do dr. Manuel Pizarro, membro do Partido Socialista – que também é responsável pelo descalabro a que isto chegou -, contra os interesses instalados no seu próprio partido, ser capaz de fazer uma coligação nestas condições.”

“O PORTO PRECISA DE GRANDES OBRAS, MAS NÃO É A CÂMARA QUE AS TEM DE FAZER”

E qual a sua opinião, relativamente, ao trabalho desenvolvido pela coligação que se encontra à frente da Câmara do Porto?

“É evidente que seis meses é muito pouco tempo para analisar, em concreto, o trabalho que está a ser realizado. Contudo, e em boa verdade, eu já estou farto das políticas das grandes obras. O Porto precisa de grandes obras, mas não é a Câmara que as tem de fazer. Por exemplo, uma nova linha de Metro a atravessar a cidade de Matosinhos ao centro, passando pelo Campo Alegre. Essa é uma obra fundamental! O Porto, por si só, não tem capacidade para realizar esta obra. Só o Estado ou a União Europeia. Olhe, o Estado investiu numa nova linha em Lisboa.

Por outro lado, o grande desafio que, neste momento, se coloca são duas grandes obras públicas: uma ponte pedonal sobre o Douro, entre as duas ribeiras…”

… e a ponte de D. Maria? Está lá perto e ao abandono…

…”fica longe! Essa ponte não resolve o problema. O passeio por onde passam milhões de pessoas está roto! Falo do tabuleiro inferior da ponte de D. Luiz. Experimente passar por lá numa cadeira de rodas. Defendo, portanto, uma nova ponte pedonal. E defendo também que deve haver uma intervenção de reabilitação, com contas bem feitas, na escarpa das Fontainhas, entre a ponte D. Luiz I e a de D. Maria. Estas são as grandes obras que defendo para o Porto. O grande objetivo do Porto, neste momento – e é nisso que a Câmara se deve concentrar – é repovoar a cidade. Isso é um objetivo social e político e não de obras públicas.”

“O BOAVISTA FAZ FALTA! O QUE TEMO É QUE A CIDADE PERCA O PRIMEIRO (FC PORTO)”

Sente-se hoje mais tripeiro que ontem, independentemente do seu FC Porto ter feito uma época futebolística para esquecer?

“O que se passou este ano no FC Porto é, parar mim, uma mistura de vergonha/embraço e alguma sensação de que numa das valências importante para a cidade, o Porto pode ceder. Construiu-se uma obra em quarenta anos que, de um momento para o outro, pode desmoronar. Estive em Manchester e a primeira indústria faturadora dessa cidade, não é nenhum estaleiro, nem uma fábrica, é a do futebol e dá pelo nome de Manchester United. Isto prova a importância de um grande clube de futebol numa cidade. Não estou a falar das capitais, estou a falar das segundas cidades. Por acaso, o Manchester United está em crise, amas a cidade teve a sorte de fazer emergir o segundo: O City.

E, nós aqui, temos o Boavista que regressará à I Liga na próxima época, de onde, desportivamente falando, nunca deveria ter saído, na altura em que saiu por estranhas questões de secretaria…

“…o ano em que o Boavista e o FC Porto foram juntos à Liga dos Campeões, foi, sem dúvida, um ano de ouro para a cidade. O Boavista faz falta à cidade! O segundo clube faz falta à cidade, o que temo é que a cidade perca o primeiro.”

Mas por quê? Com a saída de Pinto da Costa?

“Não! Não é uma questão de personalização. Este ano foi demasiado mau. Imagine uma grande empresa – uma grande indústria – que é o FC Porto, que em vez de vender exportando mil milhões de contos… perde tudo num ano”.

A questão no FC Porto está muito personalizada, quer queiramos quer não. Não concorda?

“Não. Não é uma questão pessoal. A crise do FC Porto é algo que afeta a cidade. É uma questão da cidade e não uma questão pessoal!”

Faz falta mais clubes na cidade com projeção internacional?!

“Sim. Neste caso, lamento profundamente muito o que aconteceu ao Boavista.”

“O TURISMO É, PARA JÁ, A GRANDE OPORTUNIDADE PARA A CIDADE!”

Entretanto, o Boavista está na I Liga, a cidade está nas “bocas do mundo” pelo melhor dos motivos, mas parece que, em seu entender, ainda falta mais alguma coisa…

“Apresentem já uma atividade económica para a cidade que seja mais rentável que o Turismo. O Porto está numa encruzilhada. É preciso apontar os problemas e depois as alternativas. Em dois colóquios onde estive presente, e onde apontei como alternativa: uma grande universidade, um grande clube de futebol e o Douro, mas o Turismo é a grande oportunidade para já. Nesses colóquios, duas pessoas insurgiram-se violentamente contra isto: “O Turismo?! Nem pensar! Isso é fazer perder a identidade da cidade”, disse um deles é empresário que tem rendimentos de milhares por ano; e o outro, que também contestou a ideia, é uma figura pública, que sei que tem mais de cinco mil por mês. Então, reagi: “Apresentem já uma alternativa para atacarem os problemas económicos da cidade, designadamente o desemprego, a estagnação e decadência do comércio, como da atividade económica…”

Portanto, o Turismo, quer a gente queira, quer não – isto tem que ser muito bem visto e muito bem discutido, porque também não quero ver a Ribeira transformada numa Disneylândia …

…ou o Porto num grande hotel.

“Sim. Gostava, por exemplo, de ver a Ribeira com gente lá dentro: habitada! A falar à moda do Porto, a dizer umas asneiradas e a mandar uns encharcados para cima dos turistas se eles fizerem barulho, que era aquilo que acontecia aqui há uns anos. Sabe o que são os encharcados?

Sei, mas ainda não levei com um… vá lá! (risos)

“Sem isso, é a morte da cidade…

…é aquilo que a define.

“Mas, a morte de uma cidade é também não haver emprego, e as pessoas morrerem ou irem embora. A morte por perda de identidade é menos má que a morte macaca por perda de trabalho e por perda de laços…”

“DEFENDO A CIDADE EM TODAS AS SITUAÇÕES!”

Falou em “irem embora”. Foram muitos os que já foram – e muitos leem o nosso jornal -, mas também lá fora enaltecem a cidade, quanto mais não seja, com a reação de saudade a que a mesma está sujeita.

“Recebi duas cartas do Canadá. Uma delas era de um senhor que já não vinha ao Porto há trinta anos, e comprou um livro meu, e agradeceu-me porque estava a reencontrar o Porto que tinha deixado. Ele tinha a cidade dentro dele.”

E ela está em si também?!

“Mesmo quando está poluída e cheira mal… eu gosto dela! Defendo-a em todas as situações! Mesmo quando há divergências sobre questões que há na cidade. Aí, prefiro não as apontar publicamente, mas fazê-las sentir e não dar mais argumentos. Por exemplo: a questão do Turismo que discordo de algumas medidas, designadamente o primado dos equipamentos turísticos sobre a habitação. Este é um problema, absolutamente fulcral! Agora, não me verão, todos os dias, a escrever artigos de artilharia pesada.”

Devido à encruzilhada de que falou, o Turismo é o caminho a tomar?

“Se isto não tivesse acontecido, o que seria o Porto? Era uma cidade estagnada, parada no tempo, em decomposição social, arruinada no seu sentido físico e despovoada. O Turismo obriga-a a mexer. O Porto tem de estar preparado para atrair turistas todos os meses e não só durante três meses. Há dezassete festas populares no Porto, tirando o S. João, que, por si só, deveria atrair um milhão de pessoas. Destacando-se o Senhor do Padrão do Carvalhido, a Senhora da Saúde, em Paranhos e o S. Bartolomeu, na Foz…”

“NO DIA EM QUE A UNIVERSIDADE DO PORTO FOR UMA DAS MELHORES DA EUROPA, ENTÃO, NESSA ALTURA, ACREDITAREI AINDA MAIS NA CIDADE”

E foi o professor, voltando a falar do S. João, que recuperou o bolo com o nome do santo.

“Foi um dos meus colaboradores/escravos que descobriu que nos anos 40/50 os jornais estavam cheios de anúncios a apelar à compra do Bolo de S. João. Descobriu-se, então, um velhote de 88 anos que tinha sido confeiteiro da “Cunha” e que tinha a receita do bolo, não se importando em dá-la a conhecer. No meu livro, eu publiquei a receita e, numa cidade que precisa, desesperadamente, de ganhar dinheiro, pergunto: quem quer assumir o Bolo de S. João como projeto? Telefone-me, então, um amigo meu, que, na altura, presidente da APOR, a dizer que agarrava o projeto. Ele promoveu uma reunião com confeiteiros da cidade e a ideia foi lançada, isto há cinco ou seis anos, e no primeiro, ano, a faturação das confeitarias da cidade do Porto para vender o Bolo de S. João foi superior ao Bolo Rei. Moral da história: estes projetos têm pernas para andar!”

Para terminar, está confiante no futuro da cidade do Porto e, como realçou, na sua vertente turística?

“Não. Eu preferia o Porto muito mais como uma cidade de investigação, da cultura e da ciência. Aceito o turismo como a tábua de salvação no momento de crise, mas o que eu quero do Porto é que seja uma cidade de cultura e de ciência, com uma grande Universidade. No dia em que a Universidade do Porto for uma das melhores da Europa, então, nessa altura, acreditarei ainda mais na cidade!”

 

Entrevista realizada por José Gonçalves e publicada no jornal ETC e Tal a 8/6/2014

Foto por António Amen

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 02/08/2014.