Minha linda freguesia

O não ter nascido agora tem grande vantagem e considerável inconveniente. Começo pelo inconveniente. Se nascesse hoje, minha mãe, conservadora assumida com inesperadas seduções de modernidade (sobretudo na moda e nos aspectos corporais, em que se esmerava), iria ter-me ao CMIN. Só para experimentar a inovação e sabendo de antemão (privilégios das mães em estado de graça) que, quando fosse grande, o filho defenderia a construção daquele magnífico equipamento. «Já que vais gostar, nasces nele», diria, impedindo-me assim de ver a luz em casa, como sucedia nos tempos em que nasci. E esta seria grande vantagem.

O inconveniente tecnocraticamente despersonalizado e sem categoria, é que não poderia dizer ufana, altiva e tripeirissimamente: «Sou portuense, natural da Vitória.» Usando as novas linguagens – não já do Acordo Ortográfico, mas das equivalentes reformas do Estado (aqui, gargalho até às lágrimas com o Estado reformado), teria de dizer: «Natural da União das freguesias de Nicolau, Ildefonso, Sé, Cedofeita e Vitória!» (disseram-me que é assim a designação oficial, mas ainda não li o D.R.).

Convenhamos: tal maneira de expressar as nossas origens arruína qualquer sentimento de amor ao bairro e às raízes do nosso território de referência. Não sei se lhe chame salsada ou cozinhado, mas esta gente, de uma penada de excel e contas de merceeiro a ver quantos funcionários abate, arrasa quatrocentos anos da espinha dorsal de uma cultura urbana. De vizinhança, herança e identidade. Em nome de quê? Da racionalidade e da eficácia? Morro de riso.

Decididamente, este país está a ficar demasiado incómodo para a geração a que pertenço, nascida na Vitória, «minha linda freguesia debruçada da colina», agora convertida em restos, estilhaços de um mundo morto.

2014©helderpacheco

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~ por Helder Pacheco em 02/08/2014.