Vozes do País

Aprendi com os meus companheiros de Newcastle a entender os estudos locais. Para isso, analisavam a vida das comunidades, depois divulgada em monografias e ensaios.

Tais estudos constituem profícua tradição portuguesa, tardia e academicamente reconhecida de investigação ambiental, social e cultural de número incontável de localidades, registada por dedicados recolectores, na sombra e no silêncio. E para com eles temos uma dívida de gratidão nem sempre assumida.

Rejeitando suspeições sobre a indiferença portuense face aos de fora, trago à colação o aparecimento dos “Cadernos de Estudos Leirienses”. Embora só no Porto se aprecie a palavra, é publicação bairrista. Tal como a Apresentação revela (citando o poeta Afonso Lopes Vieira): «é do amor das piquenas pátrias que se enraíza e fortifica o amor das grandes».

Nestes Cadernos aprende-se Portugal, através de estudos como o “Impacto das Invasões Napoleónicas no Norte do Distrito de Leiria” (onde, como no resto do país, as hordas invasoras antecederam em dois séculos os nazis na destruição e extermínio); a “Mata de Leiria nas Exposições Universais“; a “Telegrafia Visual na Estremadura”; os “Vitrais do Mosteiro da Batalha”; o “Regime de Exploração da terra na região de Alcobaça na transição para o Liberalismo”, etc. E até se aprende Porto, no artigo sobre o casamento do notável arquitecto suíço-leiriense Ernesto Korrodi que, com seu filho Camilo, foi autor do projecto (de 1952) da Igreja do Santíssimo Sacramento, ponte entre tradição e inovação. E também em alusões à inauguração do cemitério do Prado do Repouso.

Saudando o país das regiões, não podemos deixar de elogiar a voz deste «pequeno rincão», desejando-lhe perseverança para singrar no terreno minado em que o centralismo vai silenciando as diversidades.

2014©helderpacheco

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 02/08/2014.