Uma Colectividade Sobrevivente

Nós, portuenses, somos herdeiros da revolução liberal de 1820 e da Constituição de 1822, que afirmava as liberdades individuais, a igualdade de todos os cidadãos perante a lei, a livre expressão de pensamento, etc. O direito de associação radica aí e, com ele, uma profunda tradição da cidade: o associativismo.
Ao longo do séc. XIX, irromperia no Burgo um movimento de formação de colectividades. Culturais, recreativas, mutualistas, cooperativas, desportivas e outras, surgiram em todas as freguesias. Milhares. A partir dos anos 60, com a erosão do Centro Histórico e da Baixa e o desterro de populações, foram-se desvanecendo. Em 1993, eram 468. Daí em diante, o ocaso associativo atingiria proporções dramáticas, constituindo outra face da tragédia que quase conduziu o Porto à implosão cívica. Contam-se pelos dedos as associações de boa saúde. Centenas extinguiram-se e o deserto avança. Não se pode despovoar uma cidade e esperar que as suas instituições sobrevivam.
Sobrevivente deste mundo em extinção é o Grupo Recreativo e Desportivo de Aldoar, que neste Setembro comemorou 80 anos. Chegou a ser campeão nacional de ténis de mesa e deu corpo ao Centro de Ciclistas de Aldoar. Resistiu à agonia das colectividades que, como escreveu o seu presidente: «lentamente vão desfalecendo e é ingrato porque são o ponto de convívio dos mais idosos, que não têm ocupação. Ali têm o jornal, televisão, as cartas, o dominó, as damas. É a distracção deles. Gratuita e diariamente.»
(Penso nos contratos milionários de um desporto de cifrões e vejo a utilidade cívica deste grupo que nem sequer tem meios para oferecer distintivos aos sócios com 50 anos de fidelidade. Não, não é o tamanho do país que o torna pequeno, é a ausência de dimensão social nos valores que o regem.)

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.