Celebrar ou Esquecer

Telefonaram-me dizendo: «Morreu a Palmirinha!». E o JN informava: «Carquejeira Palmira vai hoje a enterrar.», dando maior destaque ao seu desaparecimento do que ao de certos cavalheiros que, na hora da verdade, vão sozinhos.
Na indiferença social em que o computador substitui o coração, já poucos sabem o que era ser carquejeira. É difícil entender profissões conciliando martírio, sacrifício, esforço, humilhação. Talvez escravidão, para ganhar o pão amassado com o pior dos suores, subindo a Corticeira com arrobas de carqueja às costas.
Destas servidões esquecidas na pressa de apagar o passado sob o manto diáfano de um presente multiculturalmente cosmopolita, a condição das car-quejeiras não era única. Pelos meados do século XX, em plena modernidade da construção dos estados sociais, mantinha-se o exercício de profissões onde a brutalidade do quotidiano se manifestava. A maioria exercida por mulheres cuja pobreza e analfabetismo empurravam para serem carregadoras de areia (na praia das Felgueiras), cascalheiras ou britadeiras (nas pedreiras da Areosa), apanhadei-ras das escórias (no Castelo do Queijo), descarregadoras de sal ou de carvão e carregadoras de paralelepípedos (nos cais do Douro).
Nenhum monumento as evoca. Nenhum memorial as consagra. Em volta do Porto (Gaia, Matosinhos, Maia), havendo menos príncipes, homenagearam os vultos anónimos que ajudaram a manter o país de pé: camponeses, padeiras, varinas, pescadores… No Burgo há um pedreiro. É pouco. Oxalá a minha amiga Arminda – que não costuma desistir daquilo em que se mete – consiga levar avante o seu projecto de construção de um monumento escultórico dedicado à figura da carquejeira, de cuja saga a última sobrevivente Palmira de Sousa nos deixou há dias. Há por aí quem queira apoiar a iniciativa?

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.