Da Cidade

Pego nas ideias de Ray Oldenburg sobre o «terceiro lugar». Para ele, a vida das comunidades divide-se em três espaços. O primeiro é o lar e quem nele mora; o segundo é o lugar do trabalho (onde se passa a maior parte do tempo); o terceiro («as âncoras da colectividade») são os sítios dos lazeres, convívios, relações, conversas, encontros, etc. Os cafés, supermercados, confeitarias, bares, tabernas, espaços comuns, associações, etc. Até as antigas barbearias eram «terceiros lugares». E, acrescentando um naco à teoria, acho que as feiras e as festas também o são.
Todavia, festas e romarias são mal vistas pelo cosmopolitismo dominante. Cheiram a povo, doce da Teixeira, música pop, farturas, churros e bifanas. E procissões, para alguns o supra-sumo da parolice, estorvando o trânsito. Se pudessem, os donos da estética conformada ao internacionalismo exterminavam festas e festeiros, para que não desfeiem as cidades. (Andam há muito a consegui-lo, desterrando os habitantes para as periferias, esvaziando os centros e, utilizando o método chamado «gentrification», substituindo os antigos moradores por turistas e classes sociais que possam pagar as exorbitâncias do mercado imobiliário.)
Por tudo isto e por se recusar a abdicar da cidade, saúdo a Festa à Senhora de Campanhã que, como há séculos, decorre de 30 de Agosto a 8 de Setembro naquele outrora arrabalde campestre do Porto. Inclui novenas, missas, procissão, coros, bandas de música, repiques, arruadas, noites musicais, fogo de artifício e, espero, barraqueiros ainda não exterminados.
Tripeiros que se prezem do amor à identidade viva das comunidades e à defesa das tradições destes «terceiros lugares» deviam cair lá em peso. A apoiar a romaria, num gesto solidário pela Matriz de Campanhã finalmente libertada da ruína.

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.