Gazetilha

Antigamente, havia nos jornais uma coluna obrigatória chamada Gazetilha. Tinha honras de primeira página e, segundo os dicionários, era «secção jocosa ou satírica, ordinariamente em verso, de alguns periódicos». Os autores chamavam-se gazetilheiros e alguns ficaram famosos na imprensa portuense.
Durante anos, as gazetilhas do JN – onde pontificaram admiráveis versejado-res – trouxeram aos leitores uma graça irreverente, por vezes cáustica, mas sempre elegante, o comentário fino ao que se passava no Burgo e no País e o retrato expressivo de manifestações (como o S. João ou o Natal) que atraíam o público. A crítica era constante e galhofeira e a felicidade espraiava-se num jogo de métrica, talento e criatividade.
Gazetilheiros e gazetilhas desapareceram dos jornais. Os comentários e o humor em verso sucumbiram às doses de comentadores encartados que pululam nos ecrãs televisivos. Todo o cão e gato comenta e as universidades portuguesas encontraram nova vocação: licenciar comentadores.
Neste deserto desgracioso (para não dizer desgraçado) em que o país se vai transformando, descobri, no jardim dos poetas, um gazetilheiro sobrevivente ao genocídio praticado pelo cosmopolitismo caseiro. Brindou-me com uma gazetilha colada à realidade, que aqui compartilho: «Como pode andar direito / O País em que vivemos / Se nem sequer há respeito / Pela polícia que temos? // Políticos em quantidade / De quem vamos ouvindo / Palavras de fraternidade / E logo a seguir mentindo. // Que há justiça meu irmão / E dizem o Bem praticar / A darem só com uma mão / E com as duas tirar. // Muito ou pouco ainda há / Mas não devia de haver / Lixos aos montes por cá / Sem vassoura p’ra varrer!»
Eis o meu brinde de um fim de Verão que – até nisso a austeridade se manifesta – anda a ficar muito chocho…

©helderpacheco 2014

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.