Novos Tempos

Neste Outono de entardeceres sem mácula, românticos e tranquilos. De todos os tons da púrpura. Um Outono que nos trouxe dias de mornura, escondendo seduções e secretos anseios e prazeres, vendo as horas passar na semi-obscuridade das tardes morrendo lentamente. Neste Outono delicioso resolvi tornar-me cosmopolita.
É um direito. Se o que está a dar é a modernização multicultural falando «everlastingly» inglês, por que razão haveria um pobre homem (não da Póvoa de Varzim, como diria o Eça, mas da Vitória) de continuar provincianamente reaccionário ao «aggiornamento»? Vou tornar-me, portanto, cosmopolita e, em lugar de festejar os Fiéis e Todos os Santos, comendo castanhas assadas ou cozidas, ou manjando umas falachas (doces durienses de farinha de castanha), regadas com vinho novo, em lugar de manter costumes bárbaros e improdutivos, que conduziram o país à situação que a troika arrasou, vou festejar o «halloween». Não no sentido antigo de ver as mulheres solteiras procurarem neste dia – ou na véspera – adivinhar o seu futuro matrimonial (isso é lá com elas), mas no sentido actual de converter o culto e a santificação dos mortos em carnaval dos vivos.
Segundo um dito irlandês (e isto é ser cosmopolita), «Todos os deuses do universo eram venerados neste dia, do nascer ao pôr do sol». Com festa. Assim, convidado por uns amigos para um «party», pranto-me lá em casa mascarado (a máscara é parisiense, de um estágio pré-cosmopolita que lá fiz há anos). Ninguém me conhecerá, transformado em figura amedrontadora (conforme o próximo Orçamento de Estado). E quais castanhas, qual água-pé, qual carapuça. Nessa noite quero bebidas de país universalizante e universalizador. Quero gin, vodka, whisky e comida decente: pizza. Vai ser festa de arromba. Nem falarei à moda do Porto.

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.