Táctica de Lavrador

Começo por uma história verdadeira: há anos, uma conhecida minha andava em Carreço (ao norte de Viana) a realizar um inquérito junto dos lavradores locais. Como nos campos decorria a azáfama da sementeira do milho nas terras recentemente aradas, reparou que, sobre elas, voavam bandos de pardais à coca para atacarem os grãos mal os humanos se afastassem.
Perguntadeira por obrigação, logo ali a jovem interrogou um dos semeadores, inquirindo o que faria para enxotar a pardalada. Se improvisava sinais sonoros, se montava espantalhos, se ia, nos primeiros dias, fazer barulho de corneta para os afugentar, se os corria a tiros de espingarda, etc. O problema parecia evidente.
A isso, o homem cofiou a barba, tirou o chapéu e coçou a cabeça, um tanto embaraçado, e depois descaiu-se com explicação singela, radical e pragmática. Que não adiantava colocar espantalhos, pois os pássaros habituavam-se a eles e não lhes ligavam nenhuma. Com barulhos e tiros era a mesma coisa. De maneira que a solução era deitar mais grãos no campo, aí um terço além do normal. E assim «dava para ele e para o que a passarada comia».
A história serve de metáfora para o seguinte: em matéria de tácticas, estratégias e técnicas futebolistas, sou um zero. Só gosto de ver jogos e o meu clube a marcar golos. Ainda assim, pensando na solução encontrada pelo lavrador de Carreço para enfrentar e vencer a passarada, proponho ao treinador do F.C.P. a adopção do mesmo estratagema. Ou seja: que o Porto jogue mais um pedaço em volume de jogo e marque mais uns tantos golos do que os adversários. Aí mais um terço chegará.
Com tal expediente, dá para nós e para aquilo que os passarões roubam durante os desafios. Digam lá se não é boa táctica. No pleno sentido da frase, o primeiro milho seria para os pardais.

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.