Um Desafio

É da História: o que chamam crise há-de passar. Falta saber quando e como. Mas passa. E, quando passar, aos países, regiões, cidades com mais altos índices educacionais, culturais e científicos está reservada a 1.ª divisão do desenvolvimen-to, aos outros a dependência. Triste perspectiva.
Embora 40 anos de Democracia tenham melhorado o nosso défice cultural, estamos ainda longe da frente. Em instituições, iniciativas e mentalidades. Sobretudo estas, acorrentadas ao lastro do imobilismo.
Tal défice é patente no Porto. Em cidade-cabeça de uma região com um milhão e meio de habitantes, que pretende receber 3 milhões de visitantes, falta muita coisa. O único gesto animador foi a abertura do Museu dos Descobrimentos, em Miragaia. Fora isso, é a displicente abulia: o Museu do Carro Eléctrico encerrou; o malquerido Museu da Indústria faleceu; o Museu da Cidade abortou e o de Etnografia e História foi assassinado. O Memorial dos Estaleiros do Ouro não passou da prancheta…
O saudoso e incansável homem de visão, Eng.º J. Baptista da Silva, lutou até ao fim da vida pela preservação da Central Hidráulica do Sousa (monumento industrial de 1882). Debalde. Foi vandalizada. Mas do notável complexo da rede de Distribuição de Água ao Porto faziam parte outros equipamentos relevantes: os reservatórios e edifícios («usines de relais», segundo a Compagnie des Eaux) de Santo Isidro, Monte dos Congregados e Foz.
O último foi preservado e os restantes, no Bonfim, oferecem a possibilidade da criação de um centro interpretativo cultural-tecnológico-industrial que possa contar às gerações actuais a história da saga do progresso que foi a construção do fornecimento de água à cidade. Uma Serralves das águas – eis o desafio. Haverá, neste Burgo sonolento, vontade, imaginação e espírito para isso?

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.