Uma Cidade

Claro que vale a pena. Quero dizer: falar do que se gosta, evocar recordações, suscitar lembranças dos momentos em que a doçura de viver era uma tarde de festa. E vale a pena falar da cidade que nos moldou, da cidade da nossa mais íntima aspiração de felicidade. Da cidade que se ama ainda que perdida e que, embora silenciada, permanece fresca e viva dentro de nós. Da cidade essencial. Com alma.
E vale a pena porque, nesta cidade invisível, há sempre alguém que nos acompanha. Alguém tocado pela graça de ter pertencido a um mundo coerente, humano, sincero e autêntico. Assim, a propósito da crónica são-joaneira no Bairro dos Marinhos, recebi a porventura mais bela mensagem a que um escrevinhador de pormenores pode aspirar. Depois de agradecer aquele artigo, dizia: «Tenho a honra de pertencer a uma família representativa desse bairro. Em 1900, veio de Lamego um casal para tentar nova vida no Porto, no Bairro dos Marinhos: a avó Toninha e o avô Quim, que tiveram 8 filhos.
Viveram com dificuldades para os criar, mas sempre com amor e bons exemplos, que felizmente souberam aproveitar. Era uma vida simples, mas não deixava de ser alegre e feliz. O meu avô sabia de alfaiate, trabalhava em casa e minha avó ajudava-o. Quando se reformou, era mestre na alfaiataria dos oficiais do Exército, na Rua da Boavista.» E rematava com a seguinte exortação: «Alegre-se, pois as pessoas que lá viveram ainda vibraram com o seu artigo. Não há crises nem cortes que apaguem as nossas memórias.»
Esta era a cidade que dava coesão e sentido à própria vida das pessoas. Sentido, ou seja, honestidade, perseverança, trabalho, sentimento e memória. A cidade agora tornada invisível pelas leis do mercado e pelos princípios de um urbanismo que se escangalha a rir com as bizarrias de gente ultrapassada.

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.