Uma Livraria

Desengane-se quem diz que antes de 74 era o atraso e a inércia. A pobreza intelectual e a de espírito. Que sabem esses getas das nossas aspirações e resistências para tornar a cidade digna?
Em finais de cinquenta, na Baixa interagiam instituições brilhantes: TEP, AJHLP, Cineclube, Fenianos, Ateneu, Galeria Alvarez. A ESBAP era um farol de inovação, as livrarias centros de tertúlia e difusão do livro, os suplementos literários dos jornais eram marcantes e as revistas culturais pululavam: Bandarra, Serpente, Notícias do Bloqueio, Gazeta Literária.
1958 seria um ano fulgurante. Em Junho, o «furacão Delgado» alvoroçou o país na miragem da democracia. Frustrada a mudança, nada ficou como dantes. E a 13.7 o Bispo do Porto, na carta a Salazar, abalaria o Regime. Pelo meio, a 19.6, o livreiro Fernando Fernandes abria a Divulgação, na Rua de Ceuta. Mais do que uma livraria, o Porto ganhou um foco de difusão do conhecimento. Uma galeria de arte surpreendente. Um local de promoção de autores e obras, de encontros e convívios. A oportunidade de privar com a novidade.
Abrindo o ciclo “Cultura a Norte”, a SPA promoveu a evocação de Fernando Fernandes, sob o título “A Divulgação da Leitura”. O Auditório do Museu Soares dos Reis ficou apenas composto. Com a dívida que muita gente tem para com ele, deveria ser uma multidão. Fazer bicha. Ficar de pé. Além da indigência, neste país campeiam desmemória e ingratidão.
À Divulgação devemos o sopro da modernidade, a ligação ao mundo, o alimento da resistência através do livro. Ajudou-nos a carregar baterias contra a vulgaridade e a mediocridade. E, sobretudo, a construir a utopia de um futuro mais justo e mais humano. E, embora o presente nos tenha privado disso, a utopia – tal como a dívida para com o Fernando – permanece em aberto.

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.