Viver Aqui

Na “internet” – além de manifestações culturais e bases de conhecimento magníficas – circulam as maiores mistificações, manipulações e aleivosias. Dignidade e lixo equivalem-se, obrigando a manter permanente vigilância selectiva para não sermos aldrabados.
Com as cautelas que a informação exige, dou vivas e bebo champanhe pelo conteúdo de um mail que me deixou eufórico. É assim: de acordo com o ranking “Urban Joy Index”, que mede a alegria que os habitantes de 31 cidades europeias sentem por viver nelas, o Porto obteve a maior classificação (86 pontos), seguido de Hamburgo (84), Colónia, Munique e Barcelona (80), numa escala de 0 a 100.
O estudo, elaborado pela marca Smart e o Instituto Rheingold, «permitiu, pela primeira vez, descrever o conceito de alegria de viver na cidade e o que se esconde por detrás disso para os respectivos moradores». Incluía 6 critérios: habitação, infraestruturação, redescoberta constante, diversidade e contraste, e conjunto do todo da cidade.
O facto de os portuenses amarem o Burgo e gostarem de viver aqui não surpreende, mas deixa-me um sabor amargo a estragar a euforia. Apesar do que dizem os detractores e o que lhe fazem destruidores e poluidores, o Porto mantém-se uma cidade contraditória mas apetecível, intrigante porque fora do tempo, mas espreitando a inovação, perfumada pela autenticidade sem ocultações, altiva, ainda que problemática. Diferente e imprevisível.
O fel assalta-me ao encontrar exilados, até à Trofa, Feira, Espinho e além, orgulhosos tripeiros desterrados do Porto pela desarrumação urbana e a ganância imobiliária. E até a famigerada lei do arrendamento está a provocar o êxodo de nova categoria de portuenses economicamente excluídos. Que fadário persegue esta cidade que, com a sua gente, podia ser incomparável?

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.