Vizinhos e Vizinhanças

Facto praticamente desconhecido entre nós, é a existência de um “Dia Europeu dos Vizinhos”. Foi criado em Paris, em 1996 pela Associação “Paris d’Amis”, com o objectivo de aproximar as pessoas lutando contra o isolamento e promovendo o convívio e a sociabilização entre os vizinhos. Comemora-se em 27 de Maio.
O isolamento – ou chamem-lhe solidão – é a doença mortal que corrói a cidade. Pior do que algumas patologias, contra ela não existem vacinas ou antibióticos. E, para a enfrentar, os nossos sistemas imunitários encontram-se enfraquecidos pela destruição do espírito de convivialidade que cimentava a coesão do Burgo anterior ao autismo especulativo de 50 anos de urbanismo do mercado e habitação social de desterro e deportação.
A acção de certos planificadores, pseudo-urbanistas e aprendizes de gestores do território tem-se revelado exemplar em matéria de substituição de comunidades unidas por laços de vizinhança, entreajuda e conhecimento mútuo por terras de ninguém. Ou de substituição da vida pelo silêncio e o vazio onde vagueiam fantasmas de gerações de usufrutuários de um conceito de cidade com gente. Densa, animada, contraditória mas activamente humana. Uma cidade de amigos, conhecidos, companheiros.
Por tudo isto, pesa-me, agride-me, amarfanha a minha consciência portuense ver ruínas, ruínas, ruínas de bairros, ruas, largos e lugares onde o Burgo chegava aos 330 000 habitantes e que a acção higiénica e virtuosa dos administradores das engenharias financeiras disfarçadas de sociais, fez regredir para 222 252. Grande obra! (Como estou dado à nostalgia, sujeitando-me a passar por reaccionário, confesso ter saudades da cidade dos vizinhos. De Sá da Bandeira à Rua do Almada, da Fontinha ao Monte Pedral, de Cedofeita ao Campo Pequeno. Tudo habitado.)

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 03/11/2014.