Como vai ser?

Se é permitido a um indígena da Vitória escolher a substância poética, direi que um dos textos mais belos de língua portuguesa é de Mário Dionísio, na morte do escritor Carlos de Oliveira. Principia assim: «É hoje o primeiro dia em que há mundo sem ti. Esforço-me por entender o sem sentido disto (…)»

Quando agora passar em Carlos Alberto, na entrada da Rua das Oliveiras, pensarei: é o primeiro dia em que não vou à Livraria Vieira assinar o ponto. Assinar o ponto, queria dizer: entrar e ser recebido pelo largo sorriso do snr. Manuel Vieira, os seus cumprimentos exuberantes e os beijos de D. Fernanda. E, depois, comentar o último jogo do FCP e o resto.

Num país de trafulhas, o snr. Vieira era o exemplo do homem honrado até ao último cêntimo. Em época de cascas-grossas, era o modelo do homem educado e afável, o verdadeiro gentleman. Em tempo de indignidade (como o golpe da reposição do subsídio vitalício), vivia dignamente com a modesta pensão de dezenas de anos de trabalho. Personificava o cidadão irrepreensível que traçou o seu destino à custa de perseverança, canseira, sacrifício.

Começou a lutar aos 14 anos como paquete numa fábrica de malhas e miudezas. Passou a vendedor até se estabelecer como sócio da firma Pinto & Ribeiro, L.da, em Mouzinho da Silveira. Morava então em S. Domingos. Em 84, deu nome à Livraria Vieira, modelo de loja simpática, convivial e, à sua medida, repositório de livros. Em 87, abandonou de vez as malhas e miudezas e, com D. Fernanda ao leme, fez-se definitivamente livreiro. Aos 76 anos, continuava de pé, incansável, jovial, lutando pela vida até a morte o derrotar.

Não, não sei como vai ser agora ir a Carlos Alberto e não encontrar o snr. Vieira. Falar com ele. Por muito que me esforce, não consigo entender o sem sentido da sua partida…

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 16/12/2014.