Sessões de quadros

Nos tempos da minha juventude éramos cinéfilos, com Sábados ou Domingos consagrados ao contentamento de ver as estreias da semana. Embora frequentadores do pontapé no cu do Coliseu e do S. João – as Gerais -, à medida de poucas posses, nem sempre o cacau chegava. Para esses momentos de ficar de fora a ougar nas entradas dos cinemas, havia uma alternativa. Não era a mesma coisa, mas compensava. Como, na altura, renúncia era coisa permanente, a solução chamava-se «Sessão de Quadros».

Consistia em ver fotografias do filme exibido, expostas nos átrios dos cinemas. À falta de melhor, servia para atenuar o desgosto, imaginando a acção no ecrã. Mirar os retratos dos artistas cujas poupas copiávamos e cujas poses admirávamos. E das artistas, em só sorrisos, já que o resto a censura não deixava mostrar. Ficávamos embevecidos. Pobre catraiada que se contentava com os «quadros de uma exposição».

Há dias encontrei na Baixa um amigo daqueles tempos, carregado de folhetos turísticos, que me revelou ter regressado às sessões de quadros. E explicou: «Como não tenho dinheiro para fazer férias, entretenho-me em casa a ver fotografias dos sítios onde gostava de ir. Viajo em classe de luxo. Vou aos confins do mundo, países exóticos, praias magníficas, Índia, Austrália, Caraíbas. Até faço cruzeiros!» Percebi.

Para os não amesendados pelas benesses públicas, os ex-remediados a caminho da insolvência, os aposentados e reformados da ex-classe média, compulsivamente espoliados por contribuições extraordinárias para cobrir a tripa-forra e o saque de quarenta anos de guerra civil contra os recursos e as contas do país, a solução é, de facto, passar férias em folhetos turísticos e, como dizia Xavier de Maistre, viajar em volta dos seus quartos. Ou, diria Garrett, ir até ao quintal.

©helderpacheco 2014

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~ por Helder Pacheco em 16/12/2014.