A dor, inesperadamente

Como dizia minha avó (senhora conservadoríssima, que suspeitava de tudo que não fosse claro): «a noite é para os bichos». Lá tinha as suas razões. Mor disso, de pequeno, não ganhei especial apetência pelos ambientes e actividades noctívagas.

Não que me deite com as galinhas, mas porque me habituei a trabalhar em casa nas calmas da noite. Mas, para não ser desmancha-prazeres, quando é preciso lá vou onde me mandam os compromissos (ou os amigos exigem). Não conheço, por isso, o que acontece na cidade nas horas de recolher, madrugada dentro. Só de ouvir falar.

Há dias, tive de passar aí pelas 10 da noite na rua fronteira à parte nova do Hospital de S.to António. Espantado, vi (de olhos bem abertos, para acreditar no que via), de ponta a ponta da rua, enchendo o passeio, homens, mulheres, rapazes, raparigas, novos, velhos e assim-assim recebendo a comida que um grupo de voluntários distribuía. Uma multidão. E, no meio dela, não os vultos clássicos dos sem-abrigo e auto-excluídos, mas muita gente da categoria social em ascensão: a nova pobreza. Envergonhada.

Como, salvo nos filmes e reportagens da T.V., nunca tinha assistido a tal espectáculo e, indígena da Vitória (com o coração ao pé da boca e o vernáculo na ponta da língua), logo ali apostrofei mentalmente uma sociedade e um sistema político que, em nome do rigor financeiro e da austeridade, condena as pessoas à condição de miseráveis. À espera, como outrora, da sopa dos pobres. Ao relento.

E, mais: apostrofei uma época e um arremedo de democracia que, por omissão, incompetência e corrupção de princípios e valores, transformou o país num pântano de dor, amargura, desilusão. (Disseram-me que espectáculos como aquele – na antiga rua chamada da Liberdade! – eram habituais noutros sítios da cidade. Acredito.)

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.