Acima de tudo

A cidade não se perde (apenas) com a fuga de habitantes. Não desaparece (apenas) com a destruição de bairros, lugares, comunidades. Não se transforma em deserto (apenas) com a implosão do pequeno comércio, a ruína e o despovoamento das ruas antigas. Não se torna invisível (apenas) com a perda de autenticidade. Regressando a Italo Calvino, diria: «Chega-se a um momento na vida em que da gente que se conheceu são mais os mortos que os vivos».
Por tal razão, a cidade perde-se (também) com a partida daqueles que contribuíram para a sua grandeza, feita de imaginação e criatividade. A cidade perde-se quando morre a sua inteligência. Quando morre alguém como António Rebordão Navarro. Poeta, contista, cronista, romancista. Exuberante, talentoso, irreverente.
Desde o seu primeiro romance (“Romagem a Creta”) ao último (“As Ruas Presas às Rodas”) viveu cinquenta anos de actividade literária, ligada devotadamente ao Porto. Pagou por isso. Os lóbis intelectuais centralistas nunca o colocaram na justa medida da sua dimensão. E o Burgo lidou mal com a integridade de um homem de princípios e ficou a dever-lhe a consagração de quem tão emotivamente o serviu.
E ficou a dever-lhe obras fundamentais à compreensão da cidade fechada e reacionária (na magnífica “Praça de Liège”), controversa (em “O Discurso da Desordem”), irónica e enigmática (em “A Cama do Gato”), cosmopolita e habitual (em “Mesopotâmia” ou na “Parábola do Passeio Alegre”), tragicamente poética (em “Romance com o Teu Nome”), camiliana e burguesa (em “Amêndoas, Doces Vene-nos”).
No panorama cultural portuense, o António (como lhe chamávamos) afirmou uma personalidade ímpar. Afinal a Creta na romagem da sua vida era esta cidade. Porque, como dizia num dos seus derradeiros escritos: «Mas, acima de tudo estava o Porto».

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.