Adeus Luísa

Em 1985, ela escreveu – sem o designar – um dos mais belos pedaços de palavras jamais ditas sobre o Porto (que ficariam desconhecidas): «Somos ânsia e memória – é o que em nós fica e nos estremece. Memória somos, até de pedras. Memória de cidades, perdidas, que nos habitam, como rostos. Esfumadas numa névoa leitosa que os crepúsculos ou os neons tornam rosa e mel, permanecem no perfil das suas torres, tocadas de luz ou no recorte dos telhados, lavados pela chuva. Nos cunhais, ressumam as nossas próprias dores que se perspectivam em linhas entrecruzadas a perderem-se fundo, íntimas: a estrutura das janelas, cega pelo sal das lágrimas.»
Partiu agora, na viagem derradeira e sem regresso, a Luísa (ou, para certas, afectuosas, pessoas que a conheciam: a Luisinha). Partiu como sempre viveu, discretamente, a mulher admirável e corajosa, professora exemplar muitos mil furos acima de todas as pedagogias normativas e didácticas taxinómicas que a faziam gargalhar a bandeiras despregadas. Partiu como sempre viveu, entre a amargura e o êxtase. Entre a condição dolorosa de existir e a doçura dos quotidianos de leite e mel que a faziam chamar aos seus alunos: «Os meus meninos» e inventar para estímulo criativo das suas aulas de Português: «Se o meu coração fosse um bosque, quem mandavas lá passear?»
Neste Inverno do nosso descontentamento, tão duro e tão agreste, a Luísa par-tiu. Leve, frágil e discreta. Talvez – quem sabe? – dando sentido às palavras escritas no final duma Crónica do seu moinho de A Ver-o-Mar: «Um rosal de rosas brancas nasce na espuma do mar. Nasce e morre a cada onda. Renova-se.» Com a partida de Luísa Dacosta desaparece um pouco de nós e da dignidade deste país que, na sua prosa poética, brilhante e solidária com a gente comum, tão bem entendeu e celebrou.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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