Balada

Um brilhante ex-jornalista meu amigo mandou-me um mail soberbo de humanidade e desencanto. Retrata certa cidade que, na pressa dos dias, nem nos apercebemos de que existe. E, como não tem tempo de antena, nem coluna escrita, pediu-me para divulgar a história, como se fosse minha. Mas não. Sendo dele, ven-do-a pelo preço por que a comprei.
Diz assim: hoje de tarde encontrei o antigo músico de um conjunto que teve alguma fama no Burgo e, sob o toldo do Café Nova Luz, ali ficámos à conversa. Sempre que o encontro, é difícil não me lembrar daquela vez, em minha casa, quando lhe passei uma guitarra para as mãos. Afinou-a e pôs-se a dedilhar as cordas e a cantar a balada de uns rapazolas da nossa idade há pouco aparecidos. Foi a primeira vez que ouvi o “Girl” dos Beatles. Balada para sempre.
Meio século depois, aqui estamos vendo a tarde passar ao ritmo das nossas histórias. Enquanto ouço o meu amigo, procuro-lhe o sentido: é um catraio no riso, um homem no trato, um velho no cansaço induzido pelas partidas da vida. Quem o conhece sabe da sua actual condição, bem distante do fulgor rutilante da “Valsa da Meia Noite” e doutros êxitos do grupo a que pertencia que animaram programas de discos pedidos, bailes populares em grandes recintos e “soirées dançantes” em clu-bes sociais.
A sua condição de sem-abrigo obriga a constante actualização sobre a morada onde pára. Por isso, à despedida, perguntei onde estava agora. O velho músico des-ta desafinada balada passa a noite sob o sete-estrelo, em Sá da Bandeira, próximo de uma estação de rádio que tantos êxitos do seu conjunto mandou para o ar.
Estes são os dramas, solidões e esquecimentos ocultos na cidade que para muitos se tornou invisível. Como se tivesse desaparecido nas ruas solitárias de uma Baixa a que roubaram a alma. Até quando?

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.