Balanço anual

Já me roubaram um rádio do carro, a carteira do bolso e um telemóvel. Coisas de gatunos alimentando o vício. Passei centenas de vezes no Aleixo, Pinheiro Torres, D. Leonor, Pasteleira, Cerco, Aldoar – sítios considerados perigosos – e nunca fui incomodado. Este ano, informaticamente, sofri a maior carga fiscal de sempre. Como foi possível: recebo menos e pago mais?
Para entender, consultei o bruxo da Triana, perito em contabilidade. Nada. O da Rechousa, de Canidelo, Ermesinde. Nada. Os Professores Dohema, Marymar, Vóvó Rita, Bah, Karine e Aparecido. Os Mestres Maliké, Mamadu, Camara, Suaré e Omar. Nada. Astrólogos, parapsicólogos, médiuns e videntes. Ninguém percebe as razões de pagar imposto a multiplicar com rendimentos a minguar.
Na “Cartilha do Povo”, escrita por José Falcão em 1896, encontrei a resposta: «para viveres na tua casa tens de pagar décima ao Estado. Queres cultivar a tua horta? Has-de pagar décima. Queres temperar o teu caldo? Tens de pagar o sal pelo dobro do valor, porque o governo lança um grande tributo sobre o sal. O azeite, o vinagre, o vinho, o bacalhau, o café, o açúcar, o milho, todos os alimentos são pagos no dobro do valor, porque o Estado cobra direitos sobre tudo o que te serve de alimento. O algodão das tuas camisas e das tuas calças, o pano da tua jaqueta, o chapéu com que te cobres, o couro das tuas botas, o ferro da tua enxada, os botões do teu colete, até o fósforo com que acendes a candeia é comprado pelo dobro do valor, porque o Estado precisa de dinheiro. (…) Lançaram também um tributo sobre os cães. Sabes quem lucra? São os ladrões. Em não havendo cães a guardar a porta, até as camisas nos roubam. Começas a perceber o que te leva o Estado?» 118 anos e 3 repúblicas depois, nada mudou. Desisto, vou-me embora para Pasárgada.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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