Calhaus sobre o Porto

Vinha eu, num fim de tarde, de Gaia para o Porto, entrei pela Ponte da Arrábida e virei para o Campo Alegre. Habitualmente, sigo até à via de acesso à Faculdade de Arquitectura e volto à direita, a caminho de Lordelo.
Quem circula por aí, ao chegar à Fac. de Letras, dá de caras com um grande painel luminoso onde são mostradas imagens do Porto. Vinha eu, portanto, nas calmas, ouvindo boa música, e vejo aparecer no ecrã um filme apresentando o edifí-cio da Câmara e, depois, lentamente, ia surgindo a placa central da Avenida. Vazia mas, enfim, a Avenida em belas fotografias.
Estava este escriba quase em cima da curva onde se volta para a Arrábida, com um olho na estrada e outro nas imagens, quando, de súbito, no filme, começaram a cair sobre o pavimento da Avenida grandes penedos. Medonhos, saltitantes. Uma catadupa de pedregulhos enchendo o espaço. Quase me espetei com o susto. Fiquei em transe. Alarmei-me, entrei em pânico. Tremi.
Não podendo parar, não vi o que acontecia aos penedos e à Avenida. Ansioso, pensei: é uma chuva de meteoritos gigantes, um fenómeno da Natureza, uma conspiração centralista contra o Porto atirando-lhe, de drones no espaço, rochedos para cima. E pus-me a mexer, não fosse algum sair do ecrã e amassar-me o carro.
Falei no assunto a um amigo entendido em novas linguagens. Explicou-me que não era cataclismo sideral, nem atentado. Era uma ficção científica mostrada para dar impacto à mensagem estética. A Câmara e a Avenida sem chuva de calhaus eram conservadoras. Aquilo era a pós-modernidade. A inovação em marcha. A criatividade «in action». A educação dos receptores para as revoluções tecnológicas, etc.
Compreendi. Fiquei a matutar entre o surpreso e o desanimado e conclui que este mundo está a ficar muito fora de mim. Já não sou dele.

©helderpacheco2014

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
%d bloggers like this: