Contra o esquecimento

O Albano Martins deu-me a notícia: «Morreu o Serafim Ferreira». E pus-me a matutar na injustiça da vida: leva quem faz falta e acrescenta alguma coisa ao mundo e deixa cá os trafulhas e etc. Mas logo acordei e resolvi escrever uma pala-vra de homenagem à memória do meu amigo Serafim.
Pouco me importa que alguns o achassem controverso e outros não lhe dessem – jamais – o merecido valor. Portuense dos tempos da cidade silenciada, lançou-se na aventura de editar um jornal literário – o “Saturno” (resistiu um ano). Ganhou a vida dispersando o talento pela imprensa, grande e pequena: crónica, notícia, reportagem, narrativa, entrevistas (até com J.L. Borges, nos anos 60!) Para sobreviver, teve de deixar o Porto – amordaçado pelo imperialismo centralista e, não raro, ingrato para com os seus.
Ainda no Burgo, publicou um dos mais belos livros de paixão pela pátria: “Litoral do Espanto”, que, mesmo empobrecido pelo cosmopolitismo literário chamado «nouveau roman», não deixa de ser um admirável repositório de amor à cidade. Assim: «ah o porto a minha cidade de que muitos não gostam que dizem ser fria húmida escura e pequena pra estender as pernas o porto a minha cidade que alguns dizem por ironia ter somente a estação de são bento para o regresso de comboio mas esses tolos não entendem o mistério que envolve a cidade nunca andaram por dentro dela no caminho do verdadeiro sentido nunca compreenderam o silêncio que a marca e dignifica (…).»
Depois, no exílio, ainda dedicou ao Porto dois livros de ausência: “Mar de Palha” e “Jano e Belisa” que, com o primeiro, formam a Trilogia dos Ofícios, viagem de regressos ao passado do autor e do país, em páginas que alimentam a memória contra o esquecimento. Para o Serafim Ferreira aqui deixo um aceno de simpatia e de saudade.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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