Conversa no 500

Dizia meu pai, republicano desgostoso com o rumo das 1.ª, 2.ª e agora 3.ª República, que trabalhou até ao fim dos dias para, como comentava, «levar uma vida limpinha», que os políticos deviam andar de eléctrico. Para ouvirem e saberem o que o povo sente, pensa e diz e agirem em conformidade.
Tinha razão. Todavia, estando os republicanos em vias de extinção, substituídos pelo pronto-a-vestir, seria impensável pôr quem está habituado ao fofo aquecido das viaturas oficiais a viajar em transportes públicos. Só para efeitos de marketing.
Indígena da Vitória – de pouco valor acrescentado -, sempre gostei de autocarros. Ando neles o mais possível. Têm vantagens sobre o Metro: são mais sociáveis. Conversa-se, discute-se, critica-se, comenta-se, goza-se. Encontra-se a humanidade ao nível do rés-do-chão, atenta à realidade porque a vive.
Há dias, no 500, um rapaz dos seus quarentas e tais, com o ar de carregar o peso do mundo, confessava a uma interlocutora de ocasião, a quem perguntara onde era S. Bento, que vivia com dificuldades. Tinha uma reforma, por invalidez, de 220 euros e o pai, idoso, a seu cargo. E mais nada, pois não conseguia arranjar trabalho, embora andasse todos os dias à procura. Não havia revolta nas suas pala-vras, que escondiam resignação e, sobretudo, a determinação de «temos de viver com isto!»
Nesse mesmo dia, lera no jornal a notícia de que um ex-político, académico no estrangeiro e inventor de fórmula bombástica sobre o Algarve, exigia a reforma de 37 000 euros! Quando o rapaz saiu, fiquei a pensar nestes contrastes de uma república sem republicanos e de uma democracia prisioneira da austeridade que mascara o lucro e a ganância, incapaz de solidariedade e justiça. E interroguei-me sobre se não era a hora de mudar qualquer coisa. Ou de mudar tudo.

©helderpacheco2014

Anúncios

~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
%d bloggers like this: