Emergências

Desde sempre, considerei o João Semana paradigma do médico e suas medicinas. Por ser um cavalheiro sensível, dedicado e generoso. Não acho que os médicos tenham de ser sacerdotes, mas o aliarem ao saber científico boa dose de humanidade e sentido do Bem Comum faria deles heróis da felicidade terrena.
O anverso: contaram-me que, há dias, entrou por supermoderna clínica do Burgo um pai, em pânico, com uma criança nos braços, banhada em sangue. A correr, batera com a cabeça num poste e fizera grande ferimento. Longe do hospital mais próximo, o homem pediu auxílio no que estava à mão. Alertado pelo pessoal da recepção, o Director da Clínica e famoso cirurgião abandonou as consultas, mandou entrar o pai para a sala de operações e tratou e suturou o ferimento da miú-da. 12 pontos, fora o resto. Mas o pior estava para vir.
E veio quando o pai, perturbado, confessou não ter dinheiro para pagar e, na aflição, nem pensou que entrava em clínica privadíssima. Alertado novamente, o Director, cirurgião, enfermeiro e tudo na emergência, disse ao homem que ninguém lhe pedia dinheiro. Fosse embora e voltasse para o curativo. E ponto final.
O reverso: um médico amigo contou-me que, também há dias, passava diante de determinado hospital e viu uma senhora caída no chão. Lembrando-se de quem era, observou-a, procurou ferimentos, inteirou-se dos sinais vitais, etc. E, como do hospital acorrera pessoal, sugeriu que o melhor seria levarem a senhora para dentro e avaliarem o seu estado. Hesitações, divisões de opinião, etc. Finalmente: que não. Conforme o protocolo, deveriam chamar o INEM.
Estão a ver a diferença? Um dia destes, a gente transforma-se em questão de códigos, regulamentos, burocracias. Até a humanidade solidária nos roubam. Este país está a tornar-se um off-shore de si próprio.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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