Honras portuenses

No livro de “Memórias de Cousas que aconteceram nesta Cidade”, do Licenciado Francisco Dias, Procurador del’Rei no Porto, escrito entre 1548 e 1583, uma das notas tem por título “O que é honra para os portuenses” ou «as honras de que os homens mais prezão nesta cidade». E enuncia que a 1.ª honra para os tripeiros era «serem Vereadores»; a 2.ª «levarem tochas no dia de Corpus Christi» (irem com tochas na procissão do Corpo de Deus); e a 3.ª «levarem as varas do pálio nas procissões e festas».
Todavia, pragmaticamente, acrescenta: «Eu digo que ter pão e vinho é o necessário para a vida e se forem bem ganhos é assaz honroso.» E também era uma honra os cidadãos serem eleitores. Mas comenta que elegiam «Deus sabe se por amizade se pelo Bem da República». E remata: «Eles lá sabem».
Desde então, o mundo deu voltas e reviravoltas. Através delas, o progresso avançou tempestivamente ou, como diria Camilo, aos pontapés. Se perguntássemos hoje aos portuenses o que é para eles mais honroso, não sei qual a resposta. Não seria, como para os «homens bons» de seiscentos, serem Vereadores da Câmara (pese a responsabilidade de o ser numa cidade dificultosa e arreigada a princípios e valores). E ainda menos levar as tochas, as varas do pálio ou os estandartes nas procissões do Burgo (pese eu conhecer alguns voluntários que o fazem com honroso empenhamento).
Nos tempos que correm, duas notas mantêm actualidade: ter pão e vinho (ter de comer) e poder ganhá-lo (ter trabalho e não ser obrigado a mendigar ou a roubar o pão a que se tem direito). E, sobretudo, eleger os candidatos, não pela conversa fiada, a falsa promessa, a simpatia oca. Elegê-los pelo apego ao Bem Comum – o Bem da República. À distância de quatrocentos anos, o Licenciado das Memórias sabia distingui-los. E nós?

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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