Indignidade

Como diria o meu amigo bem educado, peço licença para contar algumas histórias verdadeiras. 1 – Um casal de reformados vivia sem sobressaltos. Subitamente, tudo ruiu. O emprego do filho extinguiu-se, entregou a casa ao banco e os pais, fiadores, liquidaram os compromissos assumidos. Pediram a insolvência e apoiam-se agora, a eles e ao filho que continua desempregado. Encostaram o automóvel, desligaram aquecedores, resistem. 2 – Um amigo meu, afectado por impostos e redução da reforma, para se manter e ajudar os filhos, está a vender os valores de família: ouro, livros, antiguidades. Resiste. 3 – O filho de um amigo meu, excelente aluno licenciado em economia, sem trabalho, com casa própria, sustenta-se com o subsídio de desemprego e apoio familiar. Oferecem-lhe lugares em escritórios, com o salário mínimo. 4 – Um amigo meu trabalha em casa todas as noites, para compensar a redução da pensão. Como aquecimento, veste um sobretudo e embrulha-se num cobertor. 5 – Uns amigos meus, para pagarem dívidas e resistirem à redução das pensões, venderam uma valiosa obra de arte, indo-portuguesa, há séculos na família. Desligaram os aquecedores. 6 – Um amigo meu, pequeno comerciante na Baixa, afectado pela falta de clientes e o aumento de impostos, entregou a loja, pediu a reforma e, pouco depois, morreu. 7 – Um amigo meu, pequeno lojista na Baixa (pagando impostos à custa de modestas pensões dele e da companheira), confidenciou-me que, em muitos dias, apura vinte euros por milagre. 8 – O filho de um amigo meu, engenheiro com Erasmus, não consegue arranjar emprego. Vive com a ajuda do pai reformado. E juntaria aqui centenas que não conheço.
É claro que a dignidade desta gente é ofendida quotidianamente. E a indignidade está em aceitar como normal a destruição em curso desta classe média sobrevivente.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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