Libras e euros

Quando me esforçava para ser cosmopolita, ia frequentemente a Londres. Anos seguidos. Naqueles tempos em que, segundo a Troika, vivíamos acima das possibilidades, o que ganhávamos dava para viajar, passar férias, fazer compras, comer fora. Enfim, vacas gordas que, conforme os tais senhores, arruinaram as finanças do país e levaram à austeridade, etc. Já sabem a cantiga: quem trabalha é que atirou o país ao charco e não os aldrabões, corruptos, oportunistas, videirinhos, boys and girls e por aí fora. Até ao infinito.
Pois nesses tempos em que nos civilizávamos viajando ouvia-se da boca de patrícios nossos também em estágio de cosmopolitização: isto é barato, custa só uma libra! Pura ilusão, engano, miopia de quem não sabia fazer contas. Uma libra valia, então, trezentos escudos, coisa que muita gente não ganhava diariamente. Era cara mas, confundindo a nuvem com Juno, não nos apercebíamos disso.
O mesmo se passa com o Euro. Pelas ruas do Burgo circula um crava profissional a pedir emprestado um euro para comprar isto ou aquilo (conforme o dia). E não é único. Muitos arrumadores que recebiam cem escudos auto-aumentaram-se para um euro em subida astronómica de 100%. Na mesma óptica de aspirantes à Europa que nos fazia ver a libra barata, não nos apercebemos de que o nosso euro (200 escudos dos antigos, da boa moeda) não vale o mesmo do dos alemães, franceses, holandeses, belgas e por aí fora. Vale menos porque, como dizia o outro, estamos – como sempre – ganhando pouco. E, com o assalto fiscal que suportamos, para castigo de culpas alheias, ainda ganhamos menos.
Se querem que lhes diga, isto do Euro, para nós, portugueses, começa a parecer-me grande ilusão. Qualquer dia torno-me eurocéptico. Agora que me sinto cosmopolita é que me deu para pensar nestas coisas…

©helderpacheco2014

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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