Melhorar a cidade

Uma coisa que me impressionou no Ulster, na guerra civil que opunha protestantes e católicos, era a utilização das paredes de Belfast e Derry como suportes de pinturas de propaganda das causas que defendiam.
Não com badalhoquices do vandalismo tolerado, mas com obras de arte. Para verem ao que isto chegou, ouvi há tempos um biltre justificar as borradelas políticas das paredes de uma escola com o seu «direito à liberdade de expressão» (sic). Outro, em nome do direito de abandalhar, pintou na parede da Lello (a mais bela livraria do mundo!) a frase cultíssima «Putas e vinho verde», apreciada pelos neo-académicos que defendem tais «expressões públicas de sentimentos»…
A cidade acordou, finalmente, para a vantagem de incentivar os criadores da pintura mural a embelezarem as suas paredes. Refiro-me a um movimento que, apoiado pela Câmara, está a dar frutos em certos locais e pode substituir a degradação pela qualificação estética.
Mas não só nas paredes exteriores. Os interiores do subsolo da «cidade subterrânea» com que lidamos nos parques de estacionamento são pesadelos visuais. Neles existe confrangedora ausência de estratégia para os transformar em qualidade de vida através da arte. Em lugares de sociabilidade. Entre nós, o cinzentismo reina nos espaços públicos, em nome da austeridade dos materiais e do minimalismo reduzido à indigência.
Como dizia a revista “Urbaine”, «o subsolo das cidades pode constituir uma variável de ajustamento das políticas urbanas, uma margem de manobra, de inovação». Nos tempos da «outra senhora», os edifícios públicos tinham de conter uma percentagem destinada a obras de arte. Com a pressa democrática de nivelar por baixo, esquecemo-nos disso. (Em alguns sítios é questão de latas de tinta, talento e vontade de melhorar a cidade!)

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.