No Coliseu

Dizia Camilo que o Porto era cosmopolita há mais tempo do que muita gente pensava, pois tinha a bernarda patriótica e a ópera italiana. Gozava com mentalidades da época que pensavam salvar o Burgo do provincianismo, abrindo-o à modernidade. Há por aí quem pense o mesmo: a vida cultural intensa, mundana, internacional é fruto de milagre da pós-modernidade. Antes, só as trevas.
Esses getas ignoram tudo. O T.E.P., o Cineclube, a UNICEPE, a Leitura, a ESBAP (dos anos 50 a 70), a Juventude Musical, D. Maria Borges e os concertos (dos maiores músicos, maestros, orquestras) no Rivoli, Trindade, Coliseu. A Portugália, a Academia Alvarez, o Ateneu, as conferências dos Fenianos e as multidões para os autógrafos. Ignoram que, com a Censura e a Pide, o Porto inventou uma cultura de Resistência moderna e actuante.
E havia Ópera Italiana. Para verem, atentem nisto: no ano dramático de 1943, de carências, bichas para comida e pobreza sob o espectro da II Guerra Mundial, o Coliseu organizou a 1.ª temporada de Ópera, marcando a história musical do Porto. E, em Maio de 1944, os empresários Rocha Brito e António Lopes trouxeram ao Burgo a Companhia de Ópera Lírica, de Ercole Casali, tendo como cabeça de cartaz o tenor Lauro Volpi e a direcção dos maestros Annovazzi e Capdevilla.
Com «Grande Orquestra Nacional e 40 coristas», a 2.ª temporada incluiu 10 óperas: Lohengrin, La Boheme, Barbeiro de Sevilha, Fausto, Madame Butterfly, Palhaços, Cavalaria Rusticana, Tosca, Traviata e Manon. A 8 de Maio, entusiasmado, um crítico do Janeiro escrevia: «Nos tempos calamitosos que vão correndo, um bom espectáculo de ópera não é, positivamente, de fácil realização. E exultava: «O Coliseu do Porto mostrou-se ontem repleto». Aprendam, pois, os pós-modernos o que era ser cosmopolita em tempo de crise.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.