Outono…

Com o Outono, as névoas nascem da barra e envolvem a cidade subindo pelo rio até Massarelos. Ou quase. Névoas já saturadas de humidade. Cheirando a maresia, amenizando as tardes e misturando a Foz Velha em subtilezas de aguare-la.
E, com o enraizar do Outono, ganha a cidade o tom das penumbras coadas pela bruma, esfumando contornos e esbatendo silhuetas. E até os brilhos dos crepúsculos se adensam roubando ao sol o esplendor do Estio, impregnando os espaços de certa atmosfera mágica, quando o lusco-fusco parece derramar-se pela noite. E a cidade ganha em sedução e em mistério.
E o sino da Afurada, tocando Avé-Marias nos fins de tarde, parece diferente – atravessando as morrinhas. E a música do CD (I Remember you) parece mais nostálgica. E os sorrisos das crianças a caminho da Escola são mais confiantes. E as ruas, especialmente as antigas, desenhadas pela História, ganham outro sentido. E o rio, caudal de águas mortas, parece ressurgir, quase poético, no seu correr ao longo do cais. E os jardins tornam-se mais discretos, transmitindo-nos a serenidade dos lugares fora do tempo.
E então, sem darmos por isso, do céu, ou, se calhar, da terra, do lugar de onde os anjos vêm, ele chega, pelo Outono, agarrado ao brilho de uma estrela. Vénus, talvez, a estrela da manhã (os pescadores da Cantareira chamavam-lhe Aurora), envolta num turbante de vapores outonais, estrela persistente e que, como dizia Lampedusa, jamais saberemos «quando se decidirá a marcar-nos um encontro menos efémero».
Do ar, do céu, ou, se calhar, da terra, sempre chega um anjo. Paira sobre a matriz de S. João e, em passe de irrealidade, pousa na curva de Sobreiras. Vem e, com ele, mudam as horas, e, como os anjos gostam de fazer, ali está. Esperando por nós. Até ao Natal, no tempo mais portuense de todo o ano.

©helderpacheco2014

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.

 
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