Outra Pátria

O meu amigo José Vale de Figueiredo, poeta sensível de timbre épico, escreveu-me dizendo: «Aqui lhe envio um singelo produto da “colheita de 2015” que ousei criar para celebrar os 600 anos da partida para Ceuta desde cá.» E explicava: «Ao fim e ao cabo foi a partir do Porto que se iniciaram os descobrimentos… Que me conste, não apareceu aqui nenhum “Velho do Restelo” a contrariar.»
E ofereceu-me um magnífico poema com o título “Do Porto novamente se partir”, que transcrevo: «Da pedra se faz verso, / cresce o poema na cidade / com as palavras claras / que o mundo diverso / nos consente. / Descobre-se, muda-nos, / crescemos continuamente, / e já não é só / o Porto de antigamente se partir, / mas também é nau / que da ida presente, / com versos e poemas novos / da foz nos leva / novamente a descobrir.» São palavras quase patrióticas.
Mas não da pátria dos golpistas, arranjistas, assaltantes e burlões que humilham a decência e prosperam à sombra da patologia centralista. Mas da pátria dos empreendedores, da pequena empresa, da iniciativa, da liberdade cívica, do «vive e deixa viver». Uma pátria pacífica, moderna, aberta e orgulhosa dos seus princípios.
Talvez por isso ouvi no autocarro: «Felizmente, lá em casa é tudo portista. Se ganhássemos o campeonato enchíamos a Avenida e andava tudo aos abraços.». Nesta convicção, venho requerer à Direcção do FCP que nos dê outra vez o título. Mude o que quiser, invente, despeça, contrate mas faça novamente do Porto Campeão. As imagens que nos chegaram pela TV são de uma terra indecente. Do país produzido pela tecnocracia. Dos subúrbios concentracionários e da irracionalidade. Dêem-nos outra vez o campeonato para mostrarmos o que é ser civilizado. Que, apesar da austeridade, continuamos gente. Do Porto temos novamente de partir.

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.