Pagar por cima

Não sei se é originalidade nossa: no teatro associativo, os actores actuam e ainda pagam por cima. E são aderecistas, cenaristas, carpinteiros, sonoplastas, luminotécnicos e tudo o mais. Ensaiam meses e assumem as despesas dos transportes. E, no dia da estreia, alguns choram de incontida emoção e alegria pelo dever cumprido.
O dever para com um ideal, uma causa chamada cultura, dádiva (aos outros) e contribuição para o Bem-Comum. Dantes diziam-se amadores, palavra depreciada pelos proprietários da Alta Cultura. Todavia amador – se os dicionários ainda contam – significa «que tem amor, que pratica a arte por amor sem alcançar benefí-cio». E isso faz a diferença.
Teatro associativo e amador é o praticado pela “Companhia Teatral de Ramalde”, do Conjunto Dramático 26 de Janeiro, fundado em 1924. Estreou há dias o seu 25.º espectáculo, na sequência de número incontável que a Associação Recreativa e Cultural que o suporta levou à cena. A comédia agora apresentada integra-se na 20.ª edição do Amasporto, encontro de teatro associativo, onde participam mais quatro grupos que pagam para amar.
Duramente atingidas pelo inverno da austeridade, pelo esquecimento dos valores associativos e desprezo pela cultura praticada ao nível do rés-do-chão, nos bairros e lugares onde havia povo, estas associações pertencem a um mundo em vias de extinção. Não fora o apoio da autarquia ramaldense e tudo ficava no caminho da perdição. Ser Instituição de Utilidade Pública vale pouco numa demo-cracia onde se promulgam leis que quintuplicam rendas sem olhar a quem. Habituadas a uma cultura de resistência, as colectividades entraram na fase da sobrevivência. Ou da revolta pela indiferença a que são votadas. (Espero que o título da comédia estreada não seja premonitório: «Isto vai acabar mal!»)

©helderpacheco2015

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~ por Helder Pacheco em 19/07/2015.